sexta-feira, julho 25

O Livro do Coração

Um dia comprei um livro que tratava do tema do imaginário que se fez em torno da figura ou imagem do coração como representação dos sentimentos; na época tinha tão pouco conhecimento do que se tratava o amor, por alguma razão nunca li o livro. Hoje me lembrei dele, lá na estante, guardado para depois.
Interessante como tenho livros que ficam assim, em stand by, mas que eu compro porque sei de algum jeito, que não sei explicar, que precisarei dele algum dia. Pode ser um fenômeno de premonição ou uma relação de atração que misteriosamente se processa nesses momentos, nossos olhos passeiam por entre as fileiras de livros e se põem em contato com um entre tantos, aquele que aparece de repente em destaque naquela multidão. Quando vamos à livraria temos uma atitude de caçador, damos uma busca como um paquera quando está em um bar: a busca por um olhar, por um tom de voz, por fragmentos de algo que seja especial e que fale para nós, em um murmúrio absolutamente particular.
Assisti nesta tarde ao filme "Banquete do Amor" ou "The feast of love", na trama há um personagem que é dono de uma cafeteria e que é observado por um cliente-conselheiro-amigo. O último mostra-se astuto no início do filme em detrimento da cegueira do coração apaixonado do primeiro. Esses lugares se invertem, mais ao final do filme. Gosto de pensar que na vida todos ocupamos lugares e papéis que são momentâneos e a roda-gigante dos dias vai virando quase sem sentirmos e nos faz experimentar o doce e o amargo, farturas e penúrias, cada coisa a seu tempo. Esse é um ponto de vista que está presente nesse filme, mas o mais interessante é a aprendizagem do amor, as lições do"coração" que vão se desenrolando ao longo da história.
Identifiquei-me com o personagem esse, o dono da cafeteria, porque ele ama sem ser correspondido, ele ama sem pedir nada em troca, e entra e sai de relacionamentos que sempre deixam-no nessa mesma posição: feito cachorrinho sem dono. Claro, não vou contar o filme, não se preocupem, só queria dizer que me vi ali nesse personagem por inúmeras experiências diferentes que se mostraram estranhamente iguais. Acho que como o Bradley, o tal personagem, também salto de olhos fechados, no amor é preciso abrir os olhos para saltar. Não quero viver mergulhada em abismos. Provavelmente meu coração está em stand by junto com aquele livro lá da prateleira. O fato é que continuo não tendo lido o tal livro ainda. Eu protelo tantas coisas na vida, mais uma ou menos uma não faz muita diferença, ou será que faz?

Alfonsina Storni




FRENTE AL MAR

Oh mar, enorme mar, corazón fiero
De ritmo desigual, corazón malo,
Yo soy más blanda que ese pobre palo
Que se pudre en tus ondas prisionero.

Oh mar, dame tu cólera tremenda,
Yo me pasé la vida perdonando,
Porque entendía, mar, yo me fui dando:
«Piedad, piedad para el que más ofenda».

Vulgaridad, vulgaridad me acosa.
Ah, me han comprado la ciudad y el hombre.
Hazme tener tu cólera sin nombre:
Ya me fatiga esta misión de rosa.

¿Ves al vulgar? Ese vulgar me apena,
Me falta el aire y donde falta quedo,
Quisiera no entender, pero no puedo:
Es la vulgaridad que me envenena.

Me empobrecí porque entender abruma,
Me empobrecí porque entender sofoca,
¡Bendecida la fuerza de la roca!
Yo tengo el corazón como la espuma.

Mar, yo soñaba ser como tú eres,
Allá en las tardes que la vida mía
Bajo las horas cálidas se abría...
Ah, yo soñaba ser como tú eres.

Mírame aquí, pequeña, miserable,
Todo dolor me vence, todo sueño;
Mar, dame, dame el inefable empeño
De tornarme soberbia, inalcanzable.

Dame tu sal, tu yodo, tu fiereza.
¡Aire de mar!... ¡Oh, tempestad! ¡Oh enojo!
Desdichada de mí, soy un abrojo,
Y muero, mar, sucumbo en mi pobreza.

Y el alma mía es como el mar, es eso,
Ah, la ciudad la pudre y la equivoca;
Pequeña vida que dolor provoca,
¡Que pueda libertarme de su peso!

Vuele mi empeño, mi esperanza vuele...
La vida mía debió ser horrible,
Debió ser una arteria incontenible
Y apenas es cicatriz que siempre duele.

terça-feira, julho 22

Vulcões




Tudo é frio e gelado. O gume dum punhal


Não tem a lividez sinistra da montanha


Quando a noite a inunda dum manto sem igual


De neve branca e fria onde o luar se banha.




No entanto que fogo, que lavas, a montanha


Oculta no seu seio de lividez fatal!


Tudo é quente lá dentro…e que paixão tamanha


A fria neve envolve em seu vestido ideal!




No gelo da indiferença ocultam-se as paixões


Como no gelo frio do cume da montanha


Se oculta a lava quente do seio dos vulcões…




Assim quando eu te falo alegre, friamente,


Sem um tremor de voz, mal sabes tu que estranha


Paixão palpita e ruge em mim doida e fremente!




Florbela Espanca

domingo, julho 13

Caminhos







“Nel mezzo del cammin di nostra vita

Mi ritrovai por una selva oscura

Chè la diritta via era smaritta.”


Dante Alighieri, A Divina Comédia, Canto I


"No meio do caminho de nossa vida/ Encontrei-me numa selva escura/Tendo perdido a verdadeira estrada."

Imagem: Gustave Doré , L'Enfer.

Você passou por mim rapidamente, levando o carrinho cheio de compras do supermercado e eu dobrava a esquina, também com pressa; aquela pressa que cresce quando quase estamos chegando em casa e o peso das compras penduradas pelas mãos vão virando toneladas, subitamente.

Eu encontrei teu sorriso inocente e generoso e o cumprimentei naquela esquina, falei algo vazio e vago sobre nosso vai-e-vem com as compras, só para dar um "oi " sem ter de nos fazer parar aquele compasso e aquele ritmo que nenhuma das duas parecia pretender brecar. E seguimos em frente sem olhar pra trás no turbilhão das horas, das tarefas e dos caminhos que temos para escolher.

A tal esquina em que nos encontramos fica em frente à "Praça dos brinquedos", sempre gostei de vir brincar nessa praça quando criança, era um dos meus lugares favoritos, eu amava andar de balanço. Balançar-me fazia com que me sentisse mais livre e mais leve e era um dos poucos brinquedos que eu não temia. Todas essas lembranças vieram a mim quando fiquei sabendo da sua morte.

Andei vivendo uns dias que pareciam, no contexto daquele último dia em que te vi, um inferno. Sempre temos algumas visitas ao inferno quando as coisas estão dando errado para nós, na nossa ótica momentânea. Descubro, algumas vezes, com o passar do tempo, que certos sofrimentos vêem para indicar caminhos em princípio confusos e que não sabemos se levam à estrada certa. Talvez os infernos sejam somente imagens do aprendizado pelo qual pagamos um preço, uma imagem do aprender que dói e que custa caro.

Minha mãe me ligou e me disse que você morreu. Aí me contou que você terminou com sua vida. Como me doeu saber desta notícia, você que era uma pessoa de quem não poderia dizer que cheguei a ser amiga, mas que eu gostava e admirava por qualidades que eu pensava perceber em você nos poucos momentos em que conversamos, tão recentemente.

Pensei em tudo o que eu poderia ter dito pra você ao invés daquela frase vazia e apresssada naquele dia, chorei tão sentidamente e me senti tão solidária desse caminho que você escolheu, não sei com que grau de lucidez. Mas saber disso me fez querer e acreditar ainda menos no mundo. Pensei em quantas coisas nós deixamos de fazer pelas outras pessoas e com as outras pessoas, porque simplesmente não as vemos com atenção, nem temos tempo para ouvi-las. Eu só enxergava seu sorriso quando a via e sua simplicidade e autenticidade, de cabelos grisalhos e sem maquiagens, sem mentiras; eu via seu olhar puro. Nunca pensei que seu olhar podia ser desprotegido. Ou que seu olhar poderia ser definido por amarguras, que poderia ser pesado por detrás das cortinas leves do sorriso. Meu Deus, como somos misteriosos e insondáveis!

O diálogo é na verdade um caminho feito de sombras, uma selva escura. Sempre estamos perdidos no diálogo e nos encontros. Que solidão eu senti quando pensei nisto. Estou tão só. Sua morte me deixou ainda mais. Escrevo essas coisas para me balançar um pouquinho. Talvez você tenha brincado no balanço também. Quem sabe? Cada um tem seus balanços na vida.

Um beijo, minha quase amiga.

quarta-feira, maio 21

Agora



Às Vezes Tudo se Ilumina
(Mario Quintana)

Às vezes tudo se ilumina de uma intensa irrealidade
E é como se agora este pobre, este único, este efêmero instante do mundo
Estivesse pintado numa tela, sempre...


Nesse meu agora, assisto impotente a uma luta pela vida: eu penso, penso, penso. Como quem analisa um teorema. Penso na minha impotência, na da medicina, na da humanidade. Penso na efemeridade realmente irreal da vida.

Eu sinto o difícil que é admitir que tudo se vai um dia, que a gente se vai. Sinto isso na náusea que está em ti e acaba nascendo em mim também, compartilho da tua náusea e o agora fica quase insuportável porque eu não quero te perder e fico mareada de tanto pensar. Tem que passar isso, eu queria que amanhã já fosse hoje e tudo fosse para o seu devido lugar.

Que infantilidade, não é? Sou muito infantil quando sofro. Sou infantil, assim, no sentido de que vejo tudo como se fosse pela primeira vez. Como se eu já não soubesse. Eu experimento um estranhamento, como se a minha rua tivesse mudado de lugar, como se as coisas na minha casa eu já não soubesse onde achar, como se girássemos ao contrário no espaço e tudo estivesse fora da ordem, como quem acaba de chegar. E continua se espalhando essa náusea nesse instante, me embrulha o pensamento e preciso expulsar o medo em golfadas. Sinto o peso da espera.

Acho que espero um instante em que tudo se ilumine de uma outra coisa menos irreal.

sábado, maio 17

Uma música na cabeça

Eu tenho cá minhas manias, como todo mundo. Claro que sempre há muita particularidade, no entanto, quando se trata de manias. Cada um tem as suas. Tenho mania de ficar com uma música na cabeça; de repente, lembro de alguma música que eu cantei nos meus idos tempos de soprano na ativa. Eu sempre tive algumas que eram minhas prediletas, "Dindi" é uma delas. Tão lindo o início da letra: "Céu, tão grande é o céu e bandos de nuvens que passam ligeiras/Pra onde elas vão?/ Ah, eu não sei, não sei./E o vento que fala nas folhas/Contando as histórias que são de ninguém/Mas que são minhas e de você também." É um mantra que hoje de manhã eu cantei, desenferrujando a voz. Lembrando das outras vozes do arranjo que sempre me fazem falta, já que sempre cantei em grupo. Mas a ausência dessas outras vozes é, talvez, um dos fatores mais emocionantes dessa experiência, porque elas continuam na lembrança, elas cantam na minha memória enquanto eu canto aqui sozinha.

domingo, maio 11

Peregrina flor

Para minha mãe, que soube perdoar.


Tem mudança que acontece que é pra bem e outras que não. Quando olho na distância do tempo essa mulher - cabelos longos, lisos e negros de índia, rosto anguloso e temperamento difícil - pergunto-me que mudança foi essa para ela. Mudou-se um dia, como aqui se diz, "de mala e cuia", saindo do frio da serra e da terra da família para seguir com o marido pro Vale do Sinos. Sina de mulher. A vida como a vida era. Os negócios eram dos homens e as decisões também, mundo de mulher era longe das letras e perto do fogão, do bordado e da filharada. No fim das contas, quando tudo terminou, será que se pode acreditar que o viver seria algum tipo de lição, que teria um porquê ou todas as razões seriam apenas invenção? Essa invenção de a sorte ou o azar ter de fazer sentido.
Umas coincidências na sua história chamam muito minha atenção, como o fato de a valsa que ela mais gostava ter tanto a dizer sobre sua vida, talvez até mesmo antes de ela vir a saber disto. Não sei qual foi a ordem dos acontecimentos, eu a conheci muito mais tarde. Lembro do cheiro bom da sua cozinha e da resistência em me segredar algo sobre o preparo dos pratos que eu gostava tanto, ao mesmo tempo, não esqueço da sua expressão de prazer ao ver como era apreciada toda e qualquer iguaria que ela oferecia pra gente. Lembro de ela me fazer muitos mimos mexendo e escovando meus cabelos que ela me dizia que eram bonitos. Vou deixá-la contar um pouco sobre si mesma, como se ainda estivesse entre nós, que certos fantasmas pedem voz para falar em datas especiais.

..................................... *........................................




Minha música preferida é Saudades de Matão. Traduz uma coisa que eu sinto aqui dentro, essa dor. Dói não saber direito o que foi feito do meu amor. Eu carrego essa tristeza do meu jeito, ficou tudo tão misturado na mudança. A mudança na minha vida começou com mudança de lugar pra morar e dum dia pro outro virou mudança no sonhar. Quero dizer é que um dia não deu mais pra sonhar.

Os criados, o dinheiro, o marido; vi tudo perdido, extraviado. Assim é quando o seu marido é dado como sumido. Desaparecido. Coisa difícil de entender, um dia saiu para fazer negócios e nunca mais voltou. Onze filhos pra criar, eu só sabia cozinhar. Comida da roça sabia fazer, nada demais, mas era boa. Feijãozinho cheiroso com manjerona e louro, farofa de repolho, broa de polvilho, pão caseiro, bolinho de arroz com salsinha da horta. De todas as terras que tinha, sobrou só um cantinho no quintal do lado da parede da cozinha, no corredor espremido: louro, manjerona, hortelã, salsinha, cebolinha, estava aí alguma coisa dos meus segredos com os temperos. Não deixei de herança pra ninguém, que não era do meu desejo. Pode ser que eu queria deixar saudade. Tem um jeito de você saber se vai deixar saudade? Tem que levar algum segredo desse junto quando virar "flor peregrina" no céu.

Fazia rapadura e doces, os guris iam vender; comiam carne que sobrava do matadouro onde iam ajudar a limpar; uma trabalheira cheia de dificuldade. Os mais velhos ensinavam os mais novos, se fazendo de pai. Não dava muito certo, que entre irmãos tem muita competição. Eu estava cheia de filho e tão sozinha, tinha minhas mania: tinha dia que tudo doía, doía o sol lá fora, o corpo na cama, os pulmões respirando, tudo tinha essa dor e todo mundo que viesse ajudar, não adiantava. Eu podia gritar que não saía de mim isso. Não adiantava chá, nem reza, nem amor de filha.

Podia ser egoísta, mas era uma dor minha assim sem fim. Eu não sei como ele se foi, mas o que mata a gente aos poucos é a espera até saber que não vem mais. Quando a gente sabe que não vem mais? A gente vai morrendo de esperar todo dia um pouco mais. E como se pára de se perguntar se ele ia voltar ou se saiu convicto a abandonar? É dessa dor em mim que eu tinha hoje aqui que contar, que talvez não fui boa mãe tendo essas coisas perdidas do passado que não passou. Um amor morto que não se enterrou.

Pode ser que ninguém entendia que eu sentia com cada filho que se ia casar o calafrio na espinha da solidão de ser deixada. Eu não queria, mas revivia. Toda nora que eu tinha era como aquela mulher que eu imaginava, numa infinita onda de suspeita, que quem sabe existia em algum lugar, que era a paixão dele, aquela por quem ele teria me trocado.

Minha música eu cantei todos os dias, "eu lamento minha desventura nessa grande dor". Até que um dia fui deixando de ouvir e de cantar e segui deixando de fazer muita coisa até que esse coração grande foi me sufocando, cada vez mais foi crescendo de tanto viver e sentir e explodiu num instante em que já não pôde mais bater por ninguém. Mas eu esperei que cada filho chegasse para poder partir sem os abandonar.

sábado, maio 10

"O autor é uma sombra, a serviço de coisas mais altas, que às vezes ele nem entende. O autor é sempre 'bananeira que já deu cacho'".

João Guimarães Rosa

Fonte: http://www.germinaliteratura.com.br/pcruzadas_guimaraesrosa_ago2006.htm

sábado, abril 26

Desnuda



Falo comigo mesma
confio minha nudez
às paredes quietas do quarto
desfaço-me de cenários e figurinos
mas estou tão segura
lá fora, ficaram os roteiros da previsibilidade
sinto o calor do que se passa dentro de mim
aninhada no aconchego desse meu ar morno
as mãos pousam leves
aterrissando sobre meu colo de estrelas
e explodem no ventre das minhas verdades
eu sou tão eu mesma
já sei
poderia dividir-me em milhões de fragmentos e ainda seria eu
supernovas nascidas de mim
brilhariam fulminantes
deixando o rastro secular
do invisível das sensações
perdidas no espaço do segredo

quinta-feira, abril 10

"Eu vejo flores em você"


A vida tem umas coincidências que, às vezes, dão aquela forte impressão na gente de que não podem ser mero fruto do acaso. Parece existir uma força de atração entre as coisas e as pessoas, entre idéias e sensações, momentos e canções. Como naquela canção do Milton Nascimento: "Eu só sei que há momento que se casa com canção, de fazer tal casamento vive a minha profissão".

Tem muita música que vira trilha sonora de um romance, de um dia especial que se viveu, de um momento que - mesmo não tendo sido fotografado ou mesmo não sendo mais ligado ao nosso presente - fica lá no coração registrado. Sempre que ouvir a tal música, pimba. Você lembra de tudo como se tivesse sido ontem. Tem canções que parecem que lêem o pensamento da gente. Como é que pode o Renato Russo ter entrado na minha cabeça e adivinhado que eu ia pensar isso um dia? Eu canto em uníssono com ele: "Você culpa seus pais por tudo e isso é absurdo. São crianças como você, o que você vai ser quando você crescer." Como pode ele ter adivinhado que, por uma série de acontecimentos na minha vida, eu perceberia que "é preciso amar como se não houvesse amanhã, porque na verdade não há"? O presente é tudo que temos, mas uma canção do passado torna tudo tão presente que chega a ser estonteante.

Ver a realidade de um jeito que encontra ressonância no olhar de tanta gente é uma verdadeira arte. Eu sou professora e, de certo modo, também tento fazer isso, para ensinar e aprender é preciso confundir as fronteiras entre o eu e o você. Como encontrar palavras que falem para cada alma e cada coração em especial? Como fazer com que cada "você" empregado no texto não seja um mero pronome, um espaço vazio que pode ser ocupado por qualquer leitor em potencial? Ao contrário, o que se quer é justamente tornar esse "você" um fogo de artifício, uma explosão reveladora que resulta na impressão inabalável de que o que se está dizendo não é pra um alguém abstrato e anônimo, é pra mim, eu mesmo que estou aqui lendo agora, em carne e osso! Claro que, ao mesmo tempo, sempre sobra algo no encontro da mensagem de uma música (ou de um texto, uma obra estética). Essa sobra gera uma espécie de distanciamento que, por vezes, é um conforto que chega depois da catarse do encontro com a dor e o amor ficcional, chega depois da descoberta de que o sentido do outro é também um pouco meu. Mas não todo. Sobra um espaço para eu respirar, para descolar, algo que fica por dizer.

Eu sou eu, você é você. Mas nessa lei da atração que vem da arte, as fronteiras se esfumam, se diluem e eu "quero ver flores em você", como um sujeito apaixonado, confundo-me com o outro. Ler e ouvir música são atos de paixão. São atos de ilusão, também, mas desses que fazem parte de um presente que a gente quer lembrar depois. E se eu fosse fazer uma prece, assim como que para me contagiar desse poder de traduzir as pessoas em palavras ao vento, palavras impressas, dispersas, imersas, iria usar mais uma inspiração musical, bem ao sabor da atualidade de um som que embalou muitos momentos memoráveis da minha geração e diria assim: "Quero te dizer a palavra certa, como o novo dia que vai nascer em um segundo"... Mas eu sei que a palavra é sempre incerta e titubeante. O jeito é encarar tudo isso como um eterno ensaio de diálogo com as outras pessoas. Muitas músicas e muitas palavras virão, daqui pra sempre.

quarta-feira, março 19

Começo


Danae - Gustav Klimt


Volto a caminhar, olhando as ruas com uma atenção pensante, turbilhante, pulsante. Estou emagrecendo. Me sinto renovada pelo acelerado da vida, por parecer estar no ritmo das coisas; o trem passa, eu passo, tudo passa. Tic-Tac. Que bom, penso no alívio de saber que não temos a eternidade, com o tempo contado tudo já parece tão complicado. Imagine se nos sobrasse tempo.


Meu coração está batendo palavras que eu vou escrevendo aqui dentro, nesse meu livro incluso. Pois é, depois de tanto tempo de análise eu ainda tenho meus livros inclusos. Os sisos já resolvi, com broca, com tudo que foi necessário, foram arrancados, com dor. Nasceram mais ou menos como eu: pela força do fórceps. Mas os livros ainda não. Penso se tem alguém que queira ler. Será necessário ser lida, não quero me sentir inútil. Talvez eu seja uma leitora egoísta de mim mesma, não aposto na idéia de compartilhar. Só que eu tenho uma sede, a boca seca de tanto não-dizer, porque escrever pra dentro é um tipo de aborto. Choro o sentido soluçante das canções que falam por mim. O mundo está aí falando por mim, não quero mais deixar por isso mesmo.

Meu coração dói, poemas correm pelas veias, crônicas e conversas imaginadas circulam pelo corpo inteiro, a pele transpira um conto com personagens com os quais eu não conversei. Sou "muito fria", me dizem, sou fechada; eu não deixo nada sair nem entrar. Eu não falo com eles, os personagens, mas eles me assombram, ficam como fetos movendo-se, chutando, apertando, querendo vida.

Preciso confessar essa inibição, essa paralisia, esse meu pecado, meu deus: quem sabe rezo um pai-nosso, duas ave-marias. Quem sabe ainda conhecerei a fé.
Eu quero dizer que eu não consigo me dedicar a esse ato solitário e masturbante de usar a linguagem para o meu prazer. Meu prazer de dizer parece proibido. Tão meu e bem escondido, re-pri-mi-do. Vou soltar essa voz escrita em mim, porque já tenho medo de ficar sem voz. Tenho medo de ficar num beco sem saída. Não, não, eu não sou egoísta de verdade, antes eu disse isso como uma analisanda que quer dar um nó no analista. Tá bom, o nó é meu; eu sei, eu sei. Dedico-me a tudo e a todos pra não me entregar pra mim.


Mas eu avanço agora, estou a um passo, com uma determinação esquisita, assumo uma cadência cada vez mais rápida e a trilha vai sendo tão absolutamente minha. À minha volta vejo tudo como se fosse pela primeira vez. Todos os pilares dos trilhos do Trensurb, sob o qual caminho agora, têm escritos, têm autores, grafiteiros, anônimos, mestres da ousadia de um registro que se faz apesar de tudo e de todos. Quem precisa dizer, diz e pronto. É assim. Preciso aprender isso, não começa se eu não começar.


Num dos pilares encontrei algo que falou comigo (o mundo fala sempre algo por você se você não disser por si mesmo): "Às vezes quando erramos aprendemos coisas que jamais teríamos aprendido se tudo tivesse dado certo".


Eu quero dizer algo que faça - ou que faço - sentido pra mais alguém além de mim. Tá dando tanta coisa errada, que cresce em mim uma fé de que o que preciso aprender de tudo isso começa aqui. Na minha escriturbação.
Texto publicado no Jornal "Pois é", nº 15. Um novo começo.

quarta-feira, março 12

Sobre a queda das máscaras ou em defesa de um personagem secundário



Não vamos nos fazer de bobos: todos sabemos que usamos máscaras, vestimos as facetas que nos convêm nas ocasiões em que elas se encaixam. Tudo bem, nada mais humano, não é mesmo? Sermos mutantes, flexíveis, adaptados ao ambiente. A lei da seleção natural reforça a idéia de que o mais apto a sobreviver é justamente aquele que melhor consegue se adaptar, a biologia e a arqueologia nos ensinam a força dessa lógica. Mas ainda que me confesse uma fraca, até poderia dizer uma otária, para certos mestres da arte da adaptabilidade, eu sempre tenho comigo - cá entre nós, vou dizer bem baixinho só para meus amigos ouvirem - um grilo-falante.

Talvez vocês que me lêem agora, também tenham seu grilo-falante, juro que eu gostaria que me confirmassem isto, por favor: que vocês também são acompanhados, como eu, por aquela figurinha conhecida como um repressor que surge do nada no melhor da festa, justamente no momento crítico. Aquele que se ergue diante das tentações e dos oportunismos, que aconselha em nome da ética, ou mesmo até, do amor ao próximo (será que ainda podemos falar dele sem sermos utópicos ou meros papagaios cujos discursos e catequismos não coincidem com as ações cotidianas???).

O grilinho, para aqueles que o conhecem, aparece antes de nosso mergulho no ato para o qual nosso ser nos impeliria com toda sua sede, o mesmo ato que mancharia nossa história e destruiria alguma coisa boa dentro de nós, tornando-nos outros para sempre. Talvez ele até se contraponha à arte da adaptação de que falei antes. É possível que aqueles que não o conheçam sejam mais livres, tenham mais prazeres, permitam-se mais, ousem mais, arrisquem mais, calculem mais friamente uma vida voltada pra si mesmos e se concentrem na luta em causa própria com seu exército de um ego só.

Talvez o nosso amigo cri-cri não seja um super-herói, afinal, em nenhuma história que se possa contar. O grilo-falante é muitas vezes um algoz do nosso desejo e das nossas ilusões, e o que é pior, na visão dos empreendedores e ambiciosos: ele é apenas um coadjuvante. Mas os pinóquios que me perdoem - apesar da lógica do capitalismo selvagem, do amor livre e do descompromisso do ninguém é de ninguém, apesar dos contos de fadas e da moral da história estarem virando coisas do tempo da minha avó -, ouvir meu grilo-falante me faz buscar ser todos os dias uma pessoa melhor. E meu nariz não cresce quando eu falo com vocês agora, enfim, ele não cresce quando eu falo. Vai ver já deixei de viver uma vida de brinquedo ou de marionete e virei gente! Mesmo que seja uma espécie em extinção.

sexta-feira, dezembro 14

And so this is Christmas



Incrível como o tempo voa, a gente costuma dizer por aí, "o tempo passa", olhei minhas fotografias do Natal do ano passado faz pouco e me assustei, já é Natal de novo! Tempo dos tais balanços de vida, acho que todo mundo faz isso, nossa velha e boa neurose de sofrer pelo que não tivemos tempo de fazer e também pelo tempo que desperdiçamos sem fazer nada, com os prazeres e as preguiças. Meus cabelos brancos aumentaram muito, segundo meu cabeleireiro e meu namorado - são os únicos que enxergam as raízes branquinhas que vão se misturando, invadindo mesmo, por entre os castanhos de antigamente. O envelhecimento é uma coisa muito esquisita, ontem eu estava jantando com amigos e entramos nesse tema do estranhamento.

A gente se estranha diante de certas marcas do tempo, como se aparecessem assim, de repente, em nós. Um amigo dizia que "não pode" deixar a barba crescer, porque já está toda branca. Eu ri e lhe contei que meu cabeleireiro falou que "estavam aumentando horrorosamente os branquinhos na raiz" - dia destes, antes de colocar minha tintura - e eu gritei logo pra ele, nada dissso! Não me conta, não me conta! Prefiro a ignorância... deixa meus ruivos em paz, pra todos os efeitos.

Na verdade, disse no jantar de ontem e digo de novo aqui, eu ainda sou uma adolescente. Como na música aquela: "quem sabe ainda sou uma garotinha...". Eu ainda sou fã do Legião Urbana e lembro como se tivesse sido ontem do show deles que eu assisti quando tinha 16, num frio de rachar, fui pra ver o Renato Russo, aquela voz sem limites, aquele jeito revoltado de dançar, uma certa raiva do mundo que eu entendia tão bem naquela época. E entendo. Sempre.

Eu não deixei de ser a adolescente que usava pó compacto pra disfarçar as espinhas do rosto, que gostava de cantar e podia passar horas só fazendo isto sem sentir o tempo passar. Ainda sou aquela garota que ri meio atrasada das piadas que me contam, a "faísca atrasada", a mesma que adorava dançar com um boa dose de exotismo (tentando imitar o Renato Russo) e podia seguir dançando por noites inteiras, quase até o amanhecer, sem ficar semi-entrevada no dia seguinte.

Como pode ser que eu seja ao mesmo tempo essa adolescente por dentro, com cabelos brancos e dor no ciático por fora? São incongruências da vida. A vida é irônica com a gente, uma verdadeira cínica, cheia de sombras na parede da caverna, a gente fica lá, meio tonto, olhando de um ângulo pra outro a tal realidade do mundo e da gente. Enquanto passatempo.

quarta-feira, outubro 24

A Arte e os Olhares Digitais


Mudando de saco pra mala, estive visitando a Bienal do Mercosul, que não teve tantos encantos quanto a anterior, mas ainda assim se encontram instalações e obras que garantem alguma diversão com uma ou outra reflexão pra levar pra casa. Uma dessas reflexões só me ocorreu depois de uma sondagem nas fotos que tirei por lá, sobretudo essa daí, que me fez pensar no modo como nos relacionamos com a arte de hoje.
Logo que chegamos ao pier do Cais do Porto, onde está ocorrendo parte das exposições, era um tal de gente clicando aqui, clicando ali, todo mundo de celular e câmeras na mão olhando tudo por trás das lentes das máquinas digitais. Eu confesso que desde o início fiquei na dúvida se fotografava as obras ou as pessoas frente a elas. Simplesmente me encanta observar como as pessoas se comportam e desfrutam das obras de arte, principalmente quando se tem a oportunidade de fotografar como fazemos no nosso dia-a-dia, já que onde vamos temos sempre o verdadeiro vício de querer registrar os instantes, congelá-los e acumulá-los nos nossos computadores. Cada vez mais o olhar digital vai se grudando e compondo nossa aparelhagem visual. Passa a ser um organismo tão importante quanto os nossos primitivos olhos.
Até aí, nada de novo no front, porque isso, como dizia uma professora minha, "até o cachorro da esquina já sabe". Intrigante, nisso tudo, sob o meu ponto de vista, é que esse olhar digitalizado e compulsivo do mundo participa da recepção da obra de arte e origina uma relação criativa que compõe a obra, coisa que desde Umberto Eco ficou notória, quando ele tratou do tema da arte como obra aberta a essas atividades de "leitura".
Enfim, toda essa enrolação é pra contar que antes de ir embora, e já meio cansada, fiz a tal invenção de brincar com as várias dimensões dos cordões de nylon dessa obra que se pode ver aí na foto, e enquanto ainda me divertia criando posições pra ver como sairiam nas fotos, outras pessoas chegavam e começavam a fazer o mesmo. Essa instantânea recriação da obra é, pra mim, o que pode haver de mais bacana e revolucionário na arte: que ela seja imprevisível.

terça-feira, agosto 28

Sobre borboletas, nós e metades


Estou com uma coisa me apertando o pescoço. Sabe aquele nó na garganta? Pois é, eu tenho isso. Mas não é exatamente uma expressão idiomática, um sentido figurado, uma metáfora. Como boa histérica, claro que o meu nó é literal, ou melhor: corporal. É um nó-dulo. Um nó-dulo da tireóide. Aliás, ele não está sozinho. Eles já são dois; logo de saída o nó já trouxe companhia. Um nó-dulo acompanhado. Eu não esperava encontrá-los, nem sentia nadica de diferente, foi bem por acaso que acabei fazendo um exame por causa das tais gripes que me rondavam e vim a saber que eles estavam lá, crescendo, apertando a garganta devagarinho. Enquanto fazia outros exames pra saber se eles eram nó-dulos do bem ou do mal, passaram-se dias em que li um zilhão de coisas sobre estes nós. Pessoas que ficam com a metade da tireóide e se livram dos nós, pessoas que aprendem a viver sem a tireóide e pessoas que tem nós do mal e que precisam ser controlados mesmo depois de serem retirados. Tanta coisa sobre nós. Tanto de nós que eu li, revi e lembrei. Tantos nós em mim. Como foram parar todos esses nós aqui dentro de mim? Descobri, nas minhas leituras insones, que a tireóide é simbolizada por uma borboleta, que é o bichinho que lembra a sua forma: ela abraça a nossa traquéia com suas duas asas. Talvez eu tenha que ficar sem uma metade da minha borboleta. Parece que é o único jeito de me livrar do nó-dulo, que é do bem, mas pode mudar de idéia. E não queremos que ele mude de idéia. De jeito nenhum. Agora, é o seguinte: com uma borboleta pela metade, ficará a vida menos colorida? Espero que não, porque eu sou fã do Klimt. Vocês já notaram, né?

terça-feira, julho 31

Pessoas

Terrenos tão movediços e tão intrigantes, as pessoas envolvem. As pessoas encantam e parece que algumas apresentam uma habilidade especial: com uma rapidez espantosa tomam parte de nós, entram na gente, nos parasitam, nos abraçam com tentáculos inúmeros e não sei ao certo se nos atam, aprisionam ou se nos domesticam. Não sei se fazer parte desse novelo humano é bom ou ruim. Não sei se gosto desse jeito das pessoas. A sociedade é uma trama de um novelo grandão; nela, o movimento de uns passa a ser, forçosamente, o movimento de outros. Agora eu quero claricianamente parar pra pensar nisso tudo, quero olhar o novelo daqui desse ângulo construído de linguagem. Vou usar lupaslavras e olhar bem de perto e me protegerei por algum tempo com meu pensescudo. Será que ser livre seria mesmo só uma miragem? Quanto mais olho em mim mais vejo fios do novelo; porque, vejam: é que olhar o novelo é me olhar também. Sou detetive das tuas pegadas e as tuas pegadas em certo ponto do caminho já são as minhas. Monstro-chiclete. Se eu parar de pensar um instante, gruda tudo. É preciso mascar. É preciso desfiar, mesmo que ao desfiar outro manto se teça. Não se pode deixar de ser. Acho que é isso que as pessoas ensinam.

quarta-feira, julho 25

Espera


Estes últimos quinze dias foram uma longa espera, que não é da mesma natureza dessa espera retratada por Di Cavalcanti, sala de espera com um ar calmo, lânguido e quente, tão diferente do frio que morou na minha espera: um frio na espinha, quase interminável. Esperar nunca foi o meu forte, eu que sempre quero ter controle de tudo na minha vida e acabo - como todos aqueles que têm essa ambição - sempre dando com os "burros n'água" e descobrindo que a gente não pode controlar a vida, essa indomável. Esperar é ter tempo demais para imaginar. É ter tempo sobrando pra sofrer. É não ter tempo pra agir, não ter mais tempo. E ter tempo demais pra saber. Esperar com o pescoço literalmente à prêmio. Mas enfim, a minha espera teve um final "quase feliz" e parece que a minha vida não vai mudar tanto assim, afinal. Mas está sendo um susto.

sábado, julho 7

Ai, que saudade do meu analista. Tô há um mês numa gripe de dar pena e não apareço mais nas sessões por conta disso. São Pedro tem pena dos gaúchos que esse tempo bipolar nos está castigando.

Um divã, seu garçom, por favor, me traga depressa. Vá perguntar ao seu freguês do lado, qual foi o resultado do futebol. Seu garçom...

quarta-feira, junho 27

Eu acredito




Esse vídeo aí faz parte de uma série que encontrei no YouTube com pequenos trechos de aulas e entrevistas do Paulo Leminski, destilando sua paixão pela poesia e pelo que ele chamou de "grande barato" da linguagem. O poeta diz que todo mundo é poeta aos 17 anos, que o que é raro é continuar acreditando na poesia depois dessa fase. Taí, eu acredito. Me acho ruim pra caramba escrevendo poesia, mas acredito na poesia que está nas coisas, insisto em deixar isso falar por mim. Acho que um poeta é um fixado, um insistente, um reminiscente, um remanescente, uma semente.

domingo, junho 24