quarta-feira, março 12

Sobre a queda das máscaras ou em defesa de um personagem secundário



Não vamos nos fazer de bobos: todos sabemos que usamos máscaras, vestimos as facetas que nos convêm nas ocasiões em que elas se encaixam. Tudo bem, nada mais humano, não é mesmo? Sermos mutantes, flexíveis, adaptados ao ambiente. A lei da seleção natural reforça a idéia de que o mais apto a sobreviver é justamente aquele que melhor consegue se adaptar, a biologia e a arqueologia nos ensinam a força dessa lógica. Mas ainda que me confesse uma fraca, até poderia dizer uma otária, para certos mestres da arte da adaptabilidade, eu sempre tenho comigo - cá entre nós, vou dizer bem baixinho só para meus amigos ouvirem - um grilo-falante.

Talvez vocês que me lêem agora, também tenham seu grilo-falante, juro que eu gostaria que me confirmassem isto, por favor: que vocês também são acompanhados, como eu, por aquela figurinha conhecida como um repressor que surge do nada no melhor da festa, justamente no momento crítico. Aquele que se ergue diante das tentações e dos oportunismos, que aconselha em nome da ética, ou mesmo até, do amor ao próximo (será que ainda podemos falar dele sem sermos utópicos ou meros papagaios cujos discursos e catequismos não coincidem com as ações cotidianas???).

O grilinho, para aqueles que o conhecem, aparece antes de nosso mergulho no ato para o qual nosso ser nos impeliria com toda sua sede, o mesmo ato que mancharia nossa história e destruiria alguma coisa boa dentro de nós, tornando-nos outros para sempre. Talvez ele até se contraponha à arte da adaptação de que falei antes. É possível que aqueles que não o conheçam sejam mais livres, tenham mais prazeres, permitam-se mais, ousem mais, arrisquem mais, calculem mais friamente uma vida voltada pra si mesmos e se concentrem na luta em causa própria com seu exército de um ego só.

Talvez o nosso amigo cri-cri não seja um super-herói, afinal, em nenhuma história que se possa contar. O grilo-falante é muitas vezes um algoz do nosso desejo e das nossas ilusões, e o que é pior, na visão dos empreendedores e ambiciosos: ele é apenas um coadjuvante. Mas os pinóquios que me perdoem - apesar da lógica do capitalismo selvagem, do amor livre e do descompromisso do ninguém é de ninguém, apesar dos contos de fadas e da moral da história estarem virando coisas do tempo da minha avó -, ouvir meu grilo-falante me faz buscar ser todos os dias uma pessoa melhor. E meu nariz não cresce quando eu falo com vocês agora, enfim, ele não cresce quando eu falo. Vai ver já deixei de viver uma vida de brinquedo ou de marionete e virei gente! Mesmo que seja uma espécie em extinção.

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