quarta-feira, julho 30

Perplex(idade)

"O júri", obra de Di Cavalcanti


Olho para todo esse mundo submerso de vontades que não são minhas: universo estranho e exótico no qual eu não sei nem como me mover nem como respirar. Estou aqui sufocando na inexatidão dos meus juízos e das minhas esperanças. Tão enganada, tão perdida e inadequada para o jogo. Eu sonhava com uma humanidade tão distinta dessa que eu vejo agora. Move-se uma peça do tabuleiro e eu penso e penso, mas não entendo. Não sei prever, não sei calcular antes. Eu tenho um peito aberto, feridas expostas, nenhuma armadura, não uso artimanhas. Eu não sei jogar. Pra falar bem sinceramente eu não tenho vontade de jogar assim. Não quero. Tenho que encontrar outra maneira de existir. Esse jogo não é meu.

sexta-feira, julho 25

O Livro do Coração

Um dia comprei um livro que tratava do tema do imaginário que se fez em torno da figura ou imagem do coração como representação dos sentimentos; na época tinha tão pouco conhecimento do que se tratava o amor, por alguma razão nunca li o livro. Hoje me lembrei dele, lá na estante, guardado para depois.
Interessante como tenho livros que ficam assim, em stand by, mas que eu compro porque sei de algum jeito, que não sei explicar, que precisarei dele algum dia. Pode ser um fenômeno de premonição ou uma relação de atração que misteriosamente se processa nesses momentos, nossos olhos passeiam por entre as fileiras de livros e se põem em contato com um entre tantos, aquele que aparece de repente em destaque naquela multidão. Quando vamos à livraria temos uma atitude de caçador, damos uma busca como um paquera quando está em um bar: a busca por um olhar, por um tom de voz, por fragmentos de algo que seja especial e que fale para nós, em um murmúrio absolutamente particular.
Assisti nesta tarde ao filme "Banquete do Amor" ou "The feast of love", na trama há um personagem que é dono de uma cafeteria e que é observado por um cliente-conselheiro-amigo. O último mostra-se astuto no início do filme em detrimento da cegueira do coração apaixonado do primeiro. Esses lugares se invertem, mais ao final do filme. Gosto de pensar que na vida todos ocupamos lugares e papéis que são momentâneos e a roda-gigante dos dias vai virando quase sem sentirmos e nos faz experimentar o doce e o amargo, farturas e penúrias, cada coisa a seu tempo. Esse é um ponto de vista que está presente nesse filme, mas o mais interessante é a aprendizagem do amor, as lições do"coração" que vão se desenrolando ao longo da história.
Identifiquei-me com o personagem esse, o dono da cafeteria, porque ele ama sem ser correspondido, ele ama sem pedir nada em troca, e entra e sai de relacionamentos que sempre deixam-no nessa mesma posição: feito cachorrinho sem dono. Claro, não vou contar o filme, não se preocupem, só queria dizer que me vi ali nesse personagem por inúmeras experiências diferentes que se mostraram estranhamente iguais. Acho que como o Bradley, o tal personagem, também salto de olhos fechados, no amor é preciso abrir os olhos para saltar. Não quero viver mergulhada em abismos. Provavelmente meu coração está em stand by junto com aquele livro lá da prateleira. O fato é que continuo não tendo lido o tal livro ainda. Eu protelo tantas coisas na vida, mais uma ou menos uma não faz muita diferença, ou será que faz?

Alfonsina Storni




FRENTE AL MAR

Oh mar, enorme mar, corazón fiero
De ritmo desigual, corazón malo,
Yo soy más blanda que ese pobre palo
Que se pudre en tus ondas prisionero.

Oh mar, dame tu cólera tremenda,
Yo me pasé la vida perdonando,
Porque entendía, mar, yo me fui dando:
«Piedad, piedad para el que más ofenda».

Vulgaridad, vulgaridad me acosa.
Ah, me han comprado la ciudad y el hombre.
Hazme tener tu cólera sin nombre:
Ya me fatiga esta misión de rosa.

¿Ves al vulgar? Ese vulgar me apena,
Me falta el aire y donde falta quedo,
Quisiera no entender, pero no puedo:
Es la vulgaridad que me envenena.

Me empobrecí porque entender abruma,
Me empobrecí porque entender sofoca,
¡Bendecida la fuerza de la roca!
Yo tengo el corazón como la espuma.

Mar, yo soñaba ser como tú eres,
Allá en las tardes que la vida mía
Bajo las horas cálidas se abría...
Ah, yo soñaba ser como tú eres.

Mírame aquí, pequeña, miserable,
Todo dolor me vence, todo sueño;
Mar, dame, dame el inefable empeño
De tornarme soberbia, inalcanzable.

Dame tu sal, tu yodo, tu fiereza.
¡Aire de mar!... ¡Oh, tempestad! ¡Oh enojo!
Desdichada de mí, soy un abrojo,
Y muero, mar, sucumbo en mi pobreza.

Y el alma mía es como el mar, es eso,
Ah, la ciudad la pudre y la equivoca;
Pequeña vida que dolor provoca,
¡Que pueda libertarme de su peso!

Vuele mi empeño, mi esperanza vuele...
La vida mía debió ser horrible,
Debió ser una arteria incontenible
Y apenas es cicatriz que siempre duele.

terça-feira, julho 22

Vulcões




Tudo é frio e gelado. O gume dum punhal


Não tem a lividez sinistra da montanha


Quando a noite a inunda dum manto sem igual


De neve branca e fria onde o luar se banha.




No entanto que fogo, que lavas, a montanha


Oculta no seu seio de lividez fatal!


Tudo é quente lá dentro…e que paixão tamanha


A fria neve envolve em seu vestido ideal!




No gelo da indiferença ocultam-se as paixões


Como no gelo frio do cume da montanha


Se oculta a lava quente do seio dos vulcões…




Assim quando eu te falo alegre, friamente,


Sem um tremor de voz, mal sabes tu que estranha


Paixão palpita e ruge em mim doida e fremente!




Florbela Espanca

domingo, julho 13

Caminhos







“Nel mezzo del cammin di nostra vita

Mi ritrovai por una selva oscura

Chè la diritta via era smaritta.”


Dante Alighieri, A Divina Comédia, Canto I


"No meio do caminho de nossa vida/ Encontrei-me numa selva escura/Tendo perdido a verdadeira estrada."

Imagem: Gustave Doré , L'Enfer.

Você passou por mim rapidamente, levando o carrinho cheio de compras do supermercado e eu dobrava a esquina, também com pressa; aquela pressa que cresce quando quase estamos chegando em casa e o peso das compras penduradas pelas mãos vão virando toneladas, subitamente.

Eu encontrei teu sorriso inocente e generoso e o cumprimentei naquela esquina, falei algo vazio e vago sobre nosso vai-e-vem com as compras, só para dar um "oi " sem ter de nos fazer parar aquele compasso e aquele ritmo que nenhuma das duas parecia pretender brecar. E seguimos em frente sem olhar pra trás no turbilhão das horas, das tarefas e dos caminhos que temos para escolher.

A tal esquina em que nos encontramos fica em frente à "Praça dos brinquedos", sempre gostei de vir brincar nessa praça quando criança, era um dos meus lugares favoritos, eu amava andar de balanço. Balançar-me fazia com que me sentisse mais livre e mais leve e era um dos poucos brinquedos que eu não temia. Todas essas lembranças vieram a mim quando fiquei sabendo da sua morte.

Andei vivendo uns dias que pareciam, no contexto daquele último dia em que te vi, um inferno. Sempre temos algumas visitas ao inferno quando as coisas estão dando errado para nós, na nossa ótica momentânea. Descubro, algumas vezes, com o passar do tempo, que certos sofrimentos vêem para indicar caminhos em princípio confusos e que não sabemos se levam à estrada certa. Talvez os infernos sejam somente imagens do aprendizado pelo qual pagamos um preço, uma imagem do aprender que dói e que custa caro.

Minha mãe me ligou e me disse que você morreu. Aí me contou que você terminou com sua vida. Como me doeu saber desta notícia, você que era uma pessoa de quem não poderia dizer que cheguei a ser amiga, mas que eu gostava e admirava por qualidades que eu pensava perceber em você nos poucos momentos em que conversamos, tão recentemente.

Pensei em tudo o que eu poderia ter dito pra você ao invés daquela frase vazia e apresssada naquele dia, chorei tão sentidamente e me senti tão solidária desse caminho que você escolheu, não sei com que grau de lucidez. Mas saber disso me fez querer e acreditar ainda menos no mundo. Pensei em quantas coisas nós deixamos de fazer pelas outras pessoas e com as outras pessoas, porque simplesmente não as vemos com atenção, nem temos tempo para ouvi-las. Eu só enxergava seu sorriso quando a via e sua simplicidade e autenticidade, de cabelos grisalhos e sem maquiagens, sem mentiras; eu via seu olhar puro. Nunca pensei que seu olhar podia ser desprotegido. Ou que seu olhar poderia ser definido por amarguras, que poderia ser pesado por detrás das cortinas leves do sorriso. Meu Deus, como somos misteriosos e insondáveis!

O diálogo é na verdade um caminho feito de sombras, uma selva escura. Sempre estamos perdidos no diálogo e nos encontros. Que solidão eu senti quando pensei nisto. Estou tão só. Sua morte me deixou ainda mais. Escrevo essas coisas para me balançar um pouquinho. Talvez você tenha brincado no balanço também. Quem sabe? Cada um tem seus balanços na vida.

Um beijo, minha quase amiga.