sábado, dezembro 26

2010

Obra de Romero Brito


Olho pra frente, porque ainda que eu traga muitas bagagens comigo, a cada manhã nasço de novo. Eu tenho mais vidas do que os gatos, que pelo que dizem, têm apenas sete. Continuo me esforçando para fazer bom uso da vida que tenho no momento. Danço mentalmente quando ouço música e canto em voz alta quando amo música. E amo sempre com música quando estou feliz. Escrevo mentalmente as obras mais perfeitas quando estou no ônibus, no metrô ou em alguma situação em que justamente não posso escrever. Meu coração é grande e eu sinto as dores do mundo, choro fácil e fico corada quando falo em público. Penso primeiro nos outros e depois em mim. Pareço calma, paciente, mas tenho um pavio curto. Posso criar falsas expectativas sem querer, porque eu sou mesmo contraditória. Posso mudar de opinião e ser sincera de uma forma pouco diplomática. Sou estranha e me aceitei; levou tempo, mas agora eu sei que quem gosta de mim, gosta de mim exatamente como eu sou. Eu tenho facilidade pra amar as pessoas como elas são. Em 2010 simplesmente quero continuar a ser eu mesma.

quarta-feira, dezembro 9

Chagall

Vai me carregar o turbilhão da vida,
agora só me acompanha essa fantasia que é minha,
que avança sentada no carrossel dos instintos de todas as cores vestidos.
Eu sou um leque de renda vermelha, um violino usado, uma delicadeza qualquer de mulher,
um detalhe e uma sobra
que visitam um abraço anônimo de veludo verde.
E rumo ao desconhecido vou-me num galope.


Por que se demora tanto para ser livre?

sábado, novembro 14

Bed - Cunningham

Viro para o outro lado da cama
como uma intrusa
e espalho os cabelos sobre o travesseiro,
e, subitamente,
inspiro os rastros da sua presença

Às vezes não se pode levar tudo embora

E prendo a respiração por uma eternidade de segundos

Quisera perder-me no labirinto vivo da desmemória,
ou simplesmente não respirar mais
Para que não se terminasse
Como todo o resto

Dói quando respiro.

sábado, outubro 10

Em finas notas de jasmim amanheço em mim

Marc Chagall, Bella with a white collar, 1917.


Em finas notas de jasmim amanheço em mim. Aquela noite que me olha lá detrás de uma ficção que nunca me pareceu verossímil, já não significa mais. Viro a página e vejo no branco, que aguarda, as milhares de histórias que podem ser. Melhor viver alguma delas. Estou amanhecendo uma nova história pra eu ser outra e nova também. Posso ouvir nas coisas que me vêem tantos rumores e tantas imprecisões; o mundo é impreciso como o presente, que só se revela no depois. Ele sussurra e não posso saber nada com contornos e limites. O mundo é lento e gradativo e hipotético e eu estou em processo de aceleração constante. Tateio nos dias do hoje. Amanheço por isso mesmo, pra ser amanhã. No meu amanhãsser.

sexta-feira, outubro 9

Vida a dois


In the Car - Lichtenstein


Pois é, pois é, pois é. Lembro de como me irrito com coisas pequenas quando convivo e sei que de longe, e depois de um tempo, tudo parece sem importância. Mas é que, no que tange às relações, todas as miudezas têm importância.

sexta-feira, julho 17



Meu sal escorre pelas fendas do tempo
Irriga a crosta quente e seca das coisas
Faço minha a colheita de palavras cortantes e nuas
Tantos anos e tantas perdas
Tudo tão distante de mim, às vezes
Meus bens alienados,
meus amores perdidos

Palavras nuas agora
que vivem apenas
da insistência de se plantar lembranças
na terra branca da memória

Quase não reconheço isso que escrevo
Estranho o rosto de mulher com que me olho
Por trás do texto...
o texto do tempo.

segunda-feira, julho 6

Ciranda



Suave, a minha pele olha a tua
Nem percebeste, mas um arrepio calado se fez ouvir
A Lua, vestida de amarelo-ouro, apareceu
Tão furtiva, sempre, a lua...

Ah, como me parece precisa essa música
Dos sons lá de fora e dos daqui de dentro

A noite conversa em nossos braços entrelaçados
Já estamos na ciranda e eu posso
Agora posso dançar
Mesmo que não saiba

Na noite, de olhar permissivo
sou criança recém-chegada
Do fundo do mar de silêncios
ouço o coração do mundo
Meu e teu,
Por um segundo

terça-feira, junho 30

Sentada na praça e olhando pra você

Eliseu Visconti- JARDIM DE LUXEMBURGO - 1905


Ah, vida, sim, estou aqui olhando pra você

Eu faço sopa de letrinhas com as reclamações dos meus amigos

Misturo tudo e esquento a tarde de inverno

Divirto meu próprio tédio

E finjo que é sério esse meu poeminha

Mania que eu tenho de querer contar que eu sinto as coisas

Que eu respiro e que eu sou igual a todo mundo

Mas de um jeito supostamente meu

Tudo um convite de mim mesma

Pra me fazer humana

De uma vez por todas

E mais algumas

sexta-feira, junho 26

Buquê de cacos

Georges Braque - Maisons à L'Estaque



toda mulher gosta de flores

disseram-me



aperto meu buquê junto ao peito

o silêncio do sonho corta

a esperança furtiva

escorre entre os dedos

quente e viva




pelo chão chovem fragmentos

dessa memória que imaginava

esse buquê de cacos

que abraço

como se fosse eu

domingo, junho 21

Salvador Dalí - Adolescência
(obra de Dalí roubada em maio de 2009 na Holanda)

Há coisas por debaixo de tudo. O mundo é um planeta com uma infinidade de canais subterrâneos, as pessoas podem esconder em suas vidas ordinárias tanta falta. Nem sou capaz de dizer de quê. Porque falta é falta e ponto final. Não tem uma especificidade.

Algumas vezes leio coisas por aí que não me fisgam, não me inpressionam, não me convencem, falta algo. Outras vezes, há quem escreva coisas que me capturam, por ser tão preciso nas palavras parece pensar com meus próprios pensamentos, minha história ou, ainda, minhas sensações. Raras vezes tem-se o desprazer de descobrir o oposto; que não parece, mas de fato é meu o que leio assinado por outrem. Estranho alguém buscar imprimir singularidade por mera imitação. Mas segundo me disseram dia desses: o plágio é uma forma de admiração. Uma forma faltante, mas é.

domingo, junho 14

Déjà vu


Essa música do Villeroy já é a segunda vez que eu uso em pouco tempo nas postagens aqui, tem algo nela que é um déjà vu mesmo. Quando a ouço penso e sinto que a espera de alguém para encontrar um amor verdadeiro passa a ser um mistério tão compreensível, tão transparente e tão bonito. E dizer sim para isso parece, então, fazer muito sentido. Então eu digo com ele: "Sim, tudo agora está no seu lugar/Amores são sempre possíveis, sim...oh, sim."

Amores possíveis

terça-feira, maio 26

Feli(mi)nices e maternidade




Enfim, sou mãe! De duas gatas que atendem pelos nomes de Alice e Gigi. Faz tempo que eu queria ter companhia aqui em casa. Pensava em um gato-homem, mas não apareceu nenhum, por enquanto, que quisesse morar comigo - e que eu quisesse também-; assim, adotei duas gatas e o universo da minha casa ficou triplamente feminino. Agora tem gente me esperando quando chego em casa! E agora quase não tenho tempo para escrever por aqui, porque elas ainda são bebês e aprontam muito e meu trabalho anda uma loucura dentro e fora de casa.

Estou aprendendo muitas coisas com essa convivência. Vou passar aqui mais seguidamente, sempre que possível, para contar das minhas aprendizagens com minhas minileoas. Estou aprendendo a nunca esquecer de alongar tudo que posso ao me levantar depois de uma noite de sono; mesmo quando com pressa, andar como bailarina na pontinha dos pés, pra enfatizar a delicadeza; aprendi que ouvir o interior de um ser é importante (por isso as gatas ronronam, pra nos lembrar dessas coisas simples e essenciais/viscerais da vida). Aqui virei aprendiz. Em troca, ensino que não podem subir na mesa e roubar a minha comida - claro que, além disso, alimento as bichanas e dou a elas tudo do bom e do melhor - ao que elas respondem com rebeldia e simpatia misturadas - felinos também são irresistíveis manipuladores, e eu que sempre acreditei que essa era uma característica tipicamente canina!
Em suma, estou aprendendo a ser gata. Espero que funcione fora dos muros da minha casa...Meow

quinta-feira, março 12



minha saudade passeia leve pelas ruas
saco vazio ao léu
sou feita de pó

me espalho mínima por entre as suas frestas
não quero ser
parte de você

contornos e vértices não tenho
sou inimaginável, indizível
atômica

sou meu próprio véu
e meu beijo é de ninguém

ungida com o tempo,
me dissolvo num campo de esquecimento

você não sabe, mas estou em toda parte

quarta-feira, março 11

ISTO





Dizem que finjo ou minto

Tudo que escrevo. Não.

Eu simplesmente sinto

Com a imaginação.

Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,


O que me falha ou finda,

É como que um terraço

Sobre outra coisa ainda.

Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio

Do que não está ao pé,

Livre do meu enleio,

Sério do que não é.

Sentir? Sinta quem lê!


Fernando Pessoa

terça-feira, março 10

Amores Possíveis



Por nossas mil e uma noites ainda não vividas, mas assiduamente imaginadas, sobrevivendo aos tempos que se desencontraram, eu sei que ontem e hoje te encontrei e que amanhã te encontrei também, porque você é como se já estivesse sempre em mim.


Composição: Totonho Villeroy



Sim, tudo agora está no seu lugar

O Universo até parece conspirar

Para que não seja tudo em vão

Tanto tempo esperando esse amor



Sim, parece até que nada em nós mudou

Tanta coisa a gente inventou

Pra chegar afinal onde sempre eu te quis

Ver chegar



Paixões que eu vivi como se fossem uma

A tua espera sempre foi assim

Contratos feitos com o tempo

Amores são sempre possíveis

Sim... Sim

quinta-feira, fevereiro 19

Com-fissão Campestre



o cheiro de mato e o barulho dos teus olhos em mim

te penso tanto mais assim

brasa no fogão e as mãos quentes

quietas e confidentes

entre pensamentos escondidos

dentro dos bolsos

quase te sinto quando te ouço

caminho ouvindo teus sonhos

de culpas e silêncios quebrados

ai, o quanto desejo que me sigas

que me abraces como se eu fosse uma árvore

e espalhes meu perfume pelo campo

cantem os pássaros pela clave do abismo

é chegada A Hora.

terça-feira, fevereiro 10


Não te deixes destruir...
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.


Cora Coralina (Outubro, 1981)

sábado, janeiro 31

Feliz Aniversário




Quando eu te conheci

Uma faísca de mim deve ter te abraçado

Recém-chegada de uma infinidade de dias conversados

de repente te encontrou ali.

Feliz Aniversário!


Aquele que eu nunca vi

Que eu nunca senti

Que eu nunca beijei

Uma metaforse de nuncas

Que viraram surrealidade.



Pós-escrito: Como Hilda Hilst escreveu em "Amavisse", anoto nesse cantinho que "em algum tempo vivi a eternidade dessas rimas". E com ela, em uníssono - afinal, sempre gostei de cantar em grupo-, repito Bataille: "Sinto-me livre para fracassar".