segunda-feira, setembro 22

Para meu amigo Leo

Eu ia cantar um mantra, um dia
Pra realizar aquela sua fantasia
Você lembra?

Tanta coisa na vida eu deixo assim
Livre das urgências, longe de emergências
Sou uma antítese da pressa
Escuto e sussurro coisas
Faço dias dos fragmentos de tempo
Como quem monta um quebra-cabeça

Eu vivo num jogo de paciência

Mas fala comigo a tua letra avessa
Meu ritmo cardíaco errante
Entende o compasso do teu verbo
E essa tua percussão tão precisa

Eu falo quase na quietude da simplicidade
Sobre a tua complexidade berrante
Espero que a conversa sempre avance

De um lado, que a tua pressa grite
Poderosa, adjetiva, exagerada
Vivamente escrita

Enquanto por aqui
Vou escrevendo
Como quem canta
O Mantra.

sábado, setembro 20

Sartreana


"É de manhã, vem o sol

Mas os pingos da chuva que ontem caiu

Ainda estão a brilhar

Ainda estão a dançar

Ao vento alegre que me traz esta canção"


Dolores Duran



De manhã tenho sentido um movimento esquisito no meu ventre; antes de acordar de verdade, meio sonolenta, sinto um friozinho, um calafrio, uma coisa difícil de definir. Faz alguns dias que sinto isto, é algo que me acomete quando estou prestes a começar um novo dia. Queria cantar a "Estrada do Sol" num dueto impossível com a Dolores Duran e sair por aí pra ver o sol.


Eu quero um montão de coisas impossíveis, eu sei, mas eu sou uma sonhadora incurável. Esse dueto seria um início de dia bacana, bem melhor do que esse friozinho na barriga. Pra falar a verdade eu sinto quase um enjôo. Uma náusea. Que merda ser tão sartreana logo de manhã!

terça-feira, setembro 9

Mudanças e andanças interiores




Olhar pra trás e não virar pó. Nem uma estátua de sal. Não é fácil. O passado é feiticeiro, prende e paralisa momentos que eram tão vivos e fossiliza tudo. É tão rápido que na vida um acontecimento assim nos faz virar nada, se não tivermos algum cuidado. Basta uma virada, um olhar breve e não se vê jamais o mesmo de novo. E lá está diante de nós: um deserto, um vazio, um vento seco que sopra ríspido em tom de mágoa ou em outros tons diferentes mas que vão todos arranhando a gente. Eu sabia que não podia olhar pra trás, que tinha que seguir em frente sem pensar, mas eu não pude evitar. Foi simplesmente um movimento meu, uma andança que eu precisava fazer nesse deserto. Constatar a paisagem, testar uma amizade, esperar uma generosidade ou uma gentileza, talvez fazer um pedido grande demais. Mas foi uma coisa que não pude evitar. Uma sinceridade que olhou antes de mim, através de mim, apesar de mim e se virou mesmo ciente dos avisos e do pacto tácito. Não quis ser o olhar de uma traidora, nem trazer nem deixar uma sensação de abandono, não quis ser o que foi. Não posso desfazer o olhar que se voltou pra trás e viu. Mas não viremos pó na paisagem desolada, só o que houve é que ficamos distantes. A distância é uma mudança, é uma coisa viva, algo que acontece entre humanidades, solidariedades, amizades. Ela cria um vão que guarda algo de bom. Irrecuperável, mas bom.

“Lembrai-vos da mulher de Ló” (Lc 17.32)

Les Femmes



Que mulher poderia expressar melhor
a condição feminina senão Medéia?


"De todos os que têm alma e pensamento,
nós, mulheres, somos a criatura mais infeliz.
Primeiro, é preciso, com o máximo de bens,
comprar um marido, e tomar o déspota de nossos
corpos. Esse mal é mais doloroso do que o próprio mal.

(.....)

Dizem que vivemos uma vida sem perigos,
em casa, enquanto eles guerreiam com a lança;
e pensam mal, pois preferiria eu três vezes
lutar com o escudo a parir uma única vez."

Há certas coisas que não mudam nunca. O mundo paralelo dos homens não se encontra com o feminino, a diferença é que agora a mulher não compra marido com um dote, geralmente nem quer marido por motivos cada vez mais razoáveis.
Mas ela continua tendo déspotas para lidar com seu corpo, que insistem em pensar mal: acreditam que suas conquistas sejam fruto da besta sedenta que eles desejam encarnar, apesar de sempre depararem-se com impossíveis e impotências, perseveram na busca do objeto de caça a ser exibido como se fosse um troféu.

E dizem que vivemos uma vida sem perigos: vejam que perigo é ser alguém com corpo, alma e pensamento; e ter as três entidades nada divorciadas nem esquizofrênicas. Vejam que perigo!

segunda-feira, setembro 8

Apontamentos sobre a raiva

Retrato de Edward James - René Magritte


"(...) a mais popular das metáforas da cultura ocidental à qual a raiva está atada é aquela de que 'as paixões são bestas dentro de uma pessoa [e] o comportamento de alguém que perdeu o controle é o comportamento de um animal selvagem'". Lakoff apud Santaella 2004: 162



"O que é verdadeiro, na maior parte das vezes, entretanto, é que a raiva é uma caso intersubjetivo".


Acredito que raiva é um passeio emocional. Ela faz seu percurso tendo seu ponto de partida na injúria e no sentimento de injustiça (quem teria começado, afinal o movimento???) e segue até a concretização da retribuição na forma da vingança, que precisa ter equivalência na virulência - aos olhos de quem se vinga - em relação ao ato abjeto que lhe deu início.


A raiva é um espelho terrivelmente cego.





sábado, setembro 6

Excultura



Já dizia o poeta

que não tinha alma pequena:


Há na vida um pouco de tudo,

aquilo que vale a pena

fica quase invisível nessas paisagens

duras e desérticas das longas viagens

que só chegam ao centro do eu mesmo.


Há tesouros que vistos de perto

viram o ouro dos bobos.


Passa a peneira, garimpeiro!!!

Separa o ignorado que pode parecer ser o ignorante

do falso sábio que vem a ser o único que pra si mesmo mente



Como tudo é reversível no jogo da vida!

A marionete começa a acreditar que faz falar o titereiro

O titereiro pensa dominar a marionete


E no espetáculo triste das mentiras

Dançam as dignidades esquecidas

sexta-feira, setembro 5