Incrível como o tempo voa, a gente costuma dizer por aí, "o tempo passa", olhei minhas fotografias do Natal do ano passado faz pouco e me assustei, já é Natal de novo! Tempo dos tais balanços de vida, acho que todo mundo faz isso, nossa velha e boa neurose de sofrer pelo que não tivemos tempo de fazer e também pelo tempo que desperdiçamos sem fazer nada, com os prazeres e as preguiças. Meus cabelos brancos aumentaram muito, segundo meu cabeleireiro e meu namorado - são os únicos que enxergam as raízes branquinhas que vão se misturando, invadindo mesmo, por entre os castanhos de antigamente. O envelhecimento é uma coisa muito esquisita, ontem eu estava jantando com amigos e entramos nesse tema do estranhamento.
A gente se estranha diante de certas marcas do tempo, como se aparecessem assim, de repente, em nós. Um amigo dizia que "não pode" deixar a barba crescer, porque já está toda branca. Eu ri e lhe contei que meu cabeleireiro falou que "estavam aumentando horrorosamente os branquinhos na raiz" - dia destes, antes de colocar minha tintura - e eu gritei logo pra ele, nada dissso! Não me conta, não me conta! Prefiro a ignorância... deixa meus ruivos em paz, pra todos os efeitos.
Na verdade, disse no jantar de ontem e digo de novo aqui, eu ainda sou uma adolescente. Como na música aquela: "quem sabe ainda sou uma garotinha...". Eu ainda sou fã do Legião Urbana e lembro como se tivesse sido ontem do show deles que eu assisti quando tinha 16, num frio de rachar, fui pra ver o Renato Russo, aquela voz sem limites, aquele jeito revoltado de dançar, uma certa raiva do mundo que eu entendia tão bem naquela época. E entendo. Sempre.
Eu não deixei de ser a adolescente que usava pó compacto pra disfarçar as espinhas do rosto, que gostava de cantar e podia passar horas só fazendo isto sem sentir o tempo passar. Ainda sou aquela garota que ri meio atrasada das piadas que me contam, a "faísca atrasada", a mesma que adorava dançar com um boa dose de exotismo (tentando imitar o Renato Russo) e podia seguir dançando por noites inteiras, quase até o amanhecer, sem ficar semi-entrevada no dia seguinte.
Como pode ser que eu seja ao mesmo tempo essa adolescente por dentro, com cabelos brancos e dor no ciático por fora? São incongruências da vida. A vida é irônica com a gente, uma verdadeira cínica, cheia de sombras na parede da caverna, a gente fica lá, meio tonto, olhando de um ângulo pra outro a tal realidade do mundo e da gente. Enquanto passatempo.



















