sexta-feira, dezembro 14

And so this is Christmas



Incrível como o tempo voa, a gente costuma dizer por aí, "o tempo passa", olhei minhas fotografias do Natal do ano passado faz pouco e me assustei, já é Natal de novo! Tempo dos tais balanços de vida, acho que todo mundo faz isso, nossa velha e boa neurose de sofrer pelo que não tivemos tempo de fazer e também pelo tempo que desperdiçamos sem fazer nada, com os prazeres e as preguiças. Meus cabelos brancos aumentaram muito, segundo meu cabeleireiro e meu namorado - são os únicos que enxergam as raízes branquinhas que vão se misturando, invadindo mesmo, por entre os castanhos de antigamente. O envelhecimento é uma coisa muito esquisita, ontem eu estava jantando com amigos e entramos nesse tema do estranhamento.

A gente se estranha diante de certas marcas do tempo, como se aparecessem assim, de repente, em nós. Um amigo dizia que "não pode" deixar a barba crescer, porque já está toda branca. Eu ri e lhe contei que meu cabeleireiro falou que "estavam aumentando horrorosamente os branquinhos na raiz" - dia destes, antes de colocar minha tintura - e eu gritei logo pra ele, nada dissso! Não me conta, não me conta! Prefiro a ignorância... deixa meus ruivos em paz, pra todos os efeitos.

Na verdade, disse no jantar de ontem e digo de novo aqui, eu ainda sou uma adolescente. Como na música aquela: "quem sabe ainda sou uma garotinha...". Eu ainda sou fã do Legião Urbana e lembro como se tivesse sido ontem do show deles que eu assisti quando tinha 16, num frio de rachar, fui pra ver o Renato Russo, aquela voz sem limites, aquele jeito revoltado de dançar, uma certa raiva do mundo que eu entendia tão bem naquela época. E entendo. Sempre.

Eu não deixei de ser a adolescente que usava pó compacto pra disfarçar as espinhas do rosto, que gostava de cantar e podia passar horas só fazendo isto sem sentir o tempo passar. Ainda sou aquela garota que ri meio atrasada das piadas que me contam, a "faísca atrasada", a mesma que adorava dançar com um boa dose de exotismo (tentando imitar o Renato Russo) e podia seguir dançando por noites inteiras, quase até o amanhecer, sem ficar semi-entrevada no dia seguinte.

Como pode ser que eu seja ao mesmo tempo essa adolescente por dentro, com cabelos brancos e dor no ciático por fora? São incongruências da vida. A vida é irônica com a gente, uma verdadeira cínica, cheia de sombras na parede da caverna, a gente fica lá, meio tonto, olhando de um ângulo pra outro a tal realidade do mundo e da gente. Enquanto passatempo.

quarta-feira, outubro 24

A Arte e os Olhares Digitais


Mudando de saco pra mala, estive visitando a Bienal do Mercosul, que não teve tantos encantos quanto a anterior, mas ainda assim se encontram instalações e obras que garantem alguma diversão com uma ou outra reflexão pra levar pra casa. Uma dessas reflexões só me ocorreu depois de uma sondagem nas fotos que tirei por lá, sobretudo essa daí, que me fez pensar no modo como nos relacionamos com a arte de hoje.
Logo que chegamos ao pier do Cais do Porto, onde está ocorrendo parte das exposições, era um tal de gente clicando aqui, clicando ali, todo mundo de celular e câmeras na mão olhando tudo por trás das lentes das máquinas digitais. Eu confesso que desde o início fiquei na dúvida se fotografava as obras ou as pessoas frente a elas. Simplesmente me encanta observar como as pessoas se comportam e desfrutam das obras de arte, principalmente quando se tem a oportunidade de fotografar como fazemos no nosso dia-a-dia, já que onde vamos temos sempre o verdadeiro vício de querer registrar os instantes, congelá-los e acumulá-los nos nossos computadores. Cada vez mais o olhar digital vai se grudando e compondo nossa aparelhagem visual. Passa a ser um organismo tão importante quanto os nossos primitivos olhos.
Até aí, nada de novo no front, porque isso, como dizia uma professora minha, "até o cachorro da esquina já sabe". Intrigante, nisso tudo, sob o meu ponto de vista, é que esse olhar digitalizado e compulsivo do mundo participa da recepção da obra de arte e origina uma relação criativa que compõe a obra, coisa que desde Umberto Eco ficou notória, quando ele tratou do tema da arte como obra aberta a essas atividades de "leitura".
Enfim, toda essa enrolação é pra contar que antes de ir embora, e já meio cansada, fiz a tal invenção de brincar com as várias dimensões dos cordões de nylon dessa obra que se pode ver aí na foto, e enquanto ainda me divertia criando posições pra ver como sairiam nas fotos, outras pessoas chegavam e começavam a fazer o mesmo. Essa instantânea recriação da obra é, pra mim, o que pode haver de mais bacana e revolucionário na arte: que ela seja imprevisível.

terça-feira, agosto 28

Sobre borboletas, nós e metades


Estou com uma coisa me apertando o pescoço. Sabe aquele nó na garganta? Pois é, eu tenho isso. Mas não é exatamente uma expressão idiomática, um sentido figurado, uma metáfora. Como boa histérica, claro que o meu nó é literal, ou melhor: corporal. É um nó-dulo. Um nó-dulo da tireóide. Aliás, ele não está sozinho. Eles já são dois; logo de saída o nó já trouxe companhia. Um nó-dulo acompanhado. Eu não esperava encontrá-los, nem sentia nadica de diferente, foi bem por acaso que acabei fazendo um exame por causa das tais gripes que me rondavam e vim a saber que eles estavam lá, crescendo, apertando a garganta devagarinho. Enquanto fazia outros exames pra saber se eles eram nó-dulos do bem ou do mal, passaram-se dias em que li um zilhão de coisas sobre estes nós. Pessoas que ficam com a metade da tireóide e se livram dos nós, pessoas que aprendem a viver sem a tireóide e pessoas que tem nós do mal e que precisam ser controlados mesmo depois de serem retirados. Tanta coisa sobre nós. Tanto de nós que eu li, revi e lembrei. Tantos nós em mim. Como foram parar todos esses nós aqui dentro de mim? Descobri, nas minhas leituras insones, que a tireóide é simbolizada por uma borboleta, que é o bichinho que lembra a sua forma: ela abraça a nossa traquéia com suas duas asas. Talvez eu tenha que ficar sem uma metade da minha borboleta. Parece que é o único jeito de me livrar do nó-dulo, que é do bem, mas pode mudar de idéia. E não queremos que ele mude de idéia. De jeito nenhum. Agora, é o seguinte: com uma borboleta pela metade, ficará a vida menos colorida? Espero que não, porque eu sou fã do Klimt. Vocês já notaram, né?

terça-feira, julho 31

Pessoas

Terrenos tão movediços e tão intrigantes, as pessoas envolvem. As pessoas encantam e parece que algumas apresentam uma habilidade especial: com uma rapidez espantosa tomam parte de nós, entram na gente, nos parasitam, nos abraçam com tentáculos inúmeros e não sei ao certo se nos atam, aprisionam ou se nos domesticam. Não sei se fazer parte desse novelo humano é bom ou ruim. Não sei se gosto desse jeito das pessoas. A sociedade é uma trama de um novelo grandão; nela, o movimento de uns passa a ser, forçosamente, o movimento de outros. Agora eu quero claricianamente parar pra pensar nisso tudo, quero olhar o novelo daqui desse ângulo construído de linguagem. Vou usar lupaslavras e olhar bem de perto e me protegerei por algum tempo com meu pensescudo. Será que ser livre seria mesmo só uma miragem? Quanto mais olho em mim mais vejo fios do novelo; porque, vejam: é que olhar o novelo é me olhar também. Sou detetive das tuas pegadas e as tuas pegadas em certo ponto do caminho já são as minhas. Monstro-chiclete. Se eu parar de pensar um instante, gruda tudo. É preciso mascar. É preciso desfiar, mesmo que ao desfiar outro manto se teça. Não se pode deixar de ser. Acho que é isso que as pessoas ensinam.

quarta-feira, julho 25

Espera


Estes últimos quinze dias foram uma longa espera, que não é da mesma natureza dessa espera retratada por Di Cavalcanti, sala de espera com um ar calmo, lânguido e quente, tão diferente do frio que morou na minha espera: um frio na espinha, quase interminável. Esperar nunca foi o meu forte, eu que sempre quero ter controle de tudo na minha vida e acabo - como todos aqueles que têm essa ambição - sempre dando com os "burros n'água" e descobrindo que a gente não pode controlar a vida, essa indomável. Esperar é ter tempo demais para imaginar. É ter tempo sobrando pra sofrer. É não ter tempo pra agir, não ter mais tempo. E ter tempo demais pra saber. Esperar com o pescoço literalmente à prêmio. Mas enfim, a minha espera teve um final "quase feliz" e parece que a minha vida não vai mudar tanto assim, afinal. Mas está sendo um susto.

sábado, julho 7

Ai, que saudade do meu analista. Tô há um mês numa gripe de dar pena e não apareço mais nas sessões por conta disso. São Pedro tem pena dos gaúchos que esse tempo bipolar nos está castigando.

Um divã, seu garçom, por favor, me traga depressa. Vá perguntar ao seu freguês do lado, qual foi o resultado do futebol. Seu garçom...

quarta-feira, junho 27

Eu acredito




Esse vídeo aí faz parte de uma série que encontrei no YouTube com pequenos trechos de aulas e entrevistas do Paulo Leminski, destilando sua paixão pela poesia e pelo que ele chamou de "grande barato" da linguagem. O poeta diz que todo mundo é poeta aos 17 anos, que o que é raro é continuar acreditando na poesia depois dessa fase. Taí, eu acredito. Me acho ruim pra caramba escrevendo poesia, mas acredito na poesia que está nas coisas, insisto em deixar isso falar por mim. Acho que um poeta é um fixado, um insistente, um reminiscente, um remanescente, uma semente.

domingo, junho 24

terça-feira, junho 12

Love - Gustave Klimt


Horas rubras (Florbela Espanca)

Horas profundas,lentas e caladas
Feitas de beijos sensuais e ardentes,
De noites de volúpia, noites quentes
Onde há risos de virgens desmaiadas…

Ouço as olaias rindo desgrenhadas…
Tombam astros em fogo, astros dementes.
E do luar os beijos languescentes
São pedaços de prata p’las estradas…

Os meus lábios são brancos como lagos…
Os meus braços são leves como afagos,
Vestiu-os o luar de sedas puras…
Sou chama e neve branca misteriosa…

E sou talvez, na noite voluptuosa,
Ó meu Poeta, o beijo que procuras!

quinta-feira, junho 7

Les Valseurs - Camile Claudel



Baila orquestrada minha pele com a tua
sou uma brevidade ou uma semibreve
não sei se me reduzo ou se me alastro
Gravito
em torno do teu olhar
E tudo gira em nós
Sistema solar antropomórfico
Beijos satélites
Música no espaço acoplado
Meu silêncio e teu barulho
Tua pausa e meu compasso
Dó, ré, mi, faz
Sol, lá, sim

quinta-feira, maio 31

O Gato e a Gata


Miauuuu... disse uma gata realizada.

segunda-feira, maio 7

Sou um deserto que monologa

Obra da querida amiga Luiza Caetano: http://www.luizacaetano.com
"Sou um deserto que monologa",.
Viollet Leduc

Violette Leduc não quer agradar. Não agrada e até assusta. Os títulos de seus livros — L' Asphyxie (A Asfixia), L'Affamée, (A Faminta), Ravages (Destroços) — não são divertidos. Ao folheá-los, entrevemos um mundo pleno de ruído e raiva, onde o amor muitas vezes traz o nome de ódio, onde a paixão de viver se expande em gritos de desespero. Um mundo devastado pela solidão e que de longe parece árido. Não o é, porém. "Sou um deserto que monologa", me escreveu um dia Violette Leduc. Nos desertos encontrei belezas incontáveis. Quem quer que nos fale do fundo de sua solidão fala de nós. O homem mais mundano ou o mais militante tem seus recônditos onde ninguém se aventura, nem mesmo ele, mas que lá estão: a noite da infância, os fracassos, as renúncias, a brusca emoção de uma nuvem no céu. Surpreender uma paisagem, um ser, tais como existem em nossa ausência: sonho impossível que todos nós acariciamos. Se lemos A Bastarda, o sonho se realiza, ou quase. Uma mulher desce ao mais secreto de si mesma e se revela com uma sinceridade intrépida, como se não houvesse ninguém para escutá-la.

Simone de Beauvoir


Pois é, lendo esse prefácio de Beauvoir, lembrei de uma conversa recente em que eu afirmei que gostaria de me sentir mais livre para escrever - mas acho que não é só pra escrever: é também pra falar, pra amar, pra transar, pra viver - porque eu acabo sempre me preocupando com o que posso provocar nas pessoas. Eu não quero ser nociva, não quero magoar, não quero me sentir culpada. Não quero ser má. Eu, no fim das contas, fico às voltas com essas antecipações, esses cálculos e acaba me faltando ar. Acaba apertando essa algema. Estou aqui pensando com meus botões que está na hora de acabar com a bocca chiusa e botar a boca no trombone. Fazer um staccato bem sonoro, pra aquecer e usar a dinâmica musical com todas as suas variações, sair do pianissimo e ir crescendo, mezzo forte, forte e principalmente, sem amarelar na hora do fortissimo, soltar a voz pela estrada molto fortissimo. Não deixar nada preso na garganta. Acho que a estréia está chegando. Merde pra todos.

quinta-feira, maio 3

Cataventos



"(...)Catavento enlouqueceu,
Ficou girando, girando.
Em torno do catavento
Dancemos todos em bando.
Dancemos todos, dancemos,
Amadas, Mortos, Amigos,
Dancemos todos até
Não mais saber-se o motivo…
Até que as paineiras tenham
Por sobre os muros florido!"
Mario Quintana

Uma nuvem de idéias passeia sem nenhuma pressa dentro de mim, estou numa fase produtiva, ao que parece.

Ontem alguém me perguntou, com outras palavras, por que uma mulher como eu (segundo essa pessoa, eu sou: bonita, "sexy" e inteligente), bem, por que eu estaria sozinha (entenda-se esse sozinha como sendo solteira = sem um homem, namorado ou marido). A verdade verdadeira mesmo é que no momento essa não é nem de longe uma preocupação pra mim e nem sei se voltará a ser, assim, pelo menos do mesmo jeito que era há pouco tempo atrás.
Não se preocupem os leitores deste blog - vocês, meus caros, que já devem ter percebido que são poucos e fiéis, amigos queridos já, conhecidos pessoalmente ou não - não se preocupem, não estou fazendo votos de castidade, longe de mim isso, que não tenho vocação pra freira, nem pra eremita, ou coisa que o valha.
Mas a questão, que eu quero apontar assim, ó, usando o dedo indicador mesmo, como me ensinaram que é feio fazer e atropelando as consciências fabricadas e civilizadinhas que passeiam pelas calçadas: eu tô me lixando pro convencional, tô emputecida com os estereótipos e tô ficando velha demais pra acreditar que eu preciso ter certos atributos pra ser feliz. Ter homem, casa, cachorro e filho, casa na praia e poupança. Ter, ter, ter. Tô de saco cheio de ouvir essa ladainha, já tô com nojo de conversinha fiada sobre bolsas Victor Hugo legítimas, vinho francês que eu nem sei pronunciar o nome, cirurgias plásticas e outras merdinhas afins. Esse disco não tem um lado B, pelo amor de deus?

Eu quero SER.

E outra nuvem de idéias passeia sem nenhuma pressa dentro de mim, estou numa outra fase, ao que parece.

sábado, abril 7


Palavras comportam
Palavras com porta
Palavras sem porta

Palavras que não se comportam

Palavras que importam

Palavras que não
outras que vão

Pazlavras

Paz

sábado, março 24

Marc Chagall - Tales from the Arabian Nights

Palavras morrem em mim todos os dias, uma coisa estranha esse não-dizer que se diz tanto e tanto. Uma vez me disseram que eu escrevo pra dentro. Tenho mesmo uma balbúrdia de silêncios, depois não sei porque não durmo. Quem vai dormir com tanto barulho?

terça-feira, março 20

O sentido anda me escapando, não sei quanto tempo faz isto. Acho que é quase como um esquecimento, sabe quando você sabe que a palavra que queria dizer está na ponta da língua? Mas não está. Parece claro, mas é só uma impressão. Tenho lido bastante, alguns conseguem transformar a falta de sentido em literatura sobre a falta de sentido. Eu ainda não sei o que eu vou fazer com isso. É uma falta estranha, é uma falta-presente, como se fosse uma mercadoria, ou como se fosse uma bomba. É uma coisa pra se jogar em algum lugar. BUM!


Ah, quase me escapava também: feliz aniversário pra mim.

sábado, março 17

Filó, minha querida

Sempre fico encantada quando me lembro do teu tamanhinho quando te conhecemos: uma bolinha loirinha que mordia tudo, agitada com as novidades de um mundo a ser desbravado. Nós nos encantamos com a filhotinha mais sapeca e te trouxemos pra casa. Você, minha melhor amiga, Filomena, ficava um amorzinho de roupinha no inverno, mas eu aceitei a sua vontade de ter movimentos livres, depois de notar algumas roupas destruídas logo que você ganhava, eu aprendi com você que devemos amar incondicionalmente.
Há quem não acredite que os nossos amigos não-humanos conseguem se comunicar conosco, não têm nenhum tipo de entendimento - pensam alguns; mas Filó, você sempre soube, e eu também, que os seus roubos de almofada do sofá eram um pacto silencioso entre nós e um ato premeditado seu: eu te xingava e você esperava que eu chegasse mais perto para disparar numa corrida que só tinha graça se eu estivese correndo atrás, toda esbaforida. Você me arrancava de um livro chato, da tarefa da limpeza, da frente do computador, do tédio da televisão, você me salvava todos os dias, minha amiga.
Sempre que me foi possível eu também tentei te salvar. Você quase nos matou de susto quando fez aquela cirurgia às pressas e eu passei meses te fazendo papinhas até que você voltasse a comer direitinho, te visitei quando você estava tomando soro e te fiz carinho pra consolar, fui um pouco tua mãe e tua amiga. Outras vezes vinha você me procurar pra dar beijinho quando me via quieta e chorando num cantinho.

Ai, que hoje estou inconsolável, porque veio o dia em que não pude mais te salvar, te acompanhar, te afagar, só me sobrou poder estar ao teu lado numa despedida tão doída, que me faz em pedaços ainda agora. Como me dói, lembrar da festinha que tu fizeste pra mim, mesmo sem poder me ver, mesmo com as dores horríveis para caminhar, tua alegria em me ver estava acima de qualquer coisa.
Eu só pude te fazer um carinho e te falar de mansinho do meu amor, enquanto você dormia para nunca mais acordar. Me senti traiçoeira por saber disso e você não. Me senti terrível por decidir a tua vida sem te consultar. Como saber se tuas dores já estavam insuportáveis pra ti? Como saber onde tu desejavas estar, como querias que fossem teus últimos dias de vida? Me perdoa se eu decidi mal, nós humanos sempre somos tão arrogantes e escutamos tão pouco os outros seres. E nossos amigos não-humanos são tão infinitamente compreensivos e amáveis conosco. Você me ensinou tanto, esteve comigo por mais de 15 anos! Você me fez tão feliz sempre, desde o primeiro dia, sem exceção, minha Filozinha-preju, minha Filó-ruguinhas-de-preocupação, Filó fã dos filmes do Beethoven, Filó. Filó, minha amiga especial, sempre viva no meu coração!

terça-feira, fevereiro 20

Di Cavalcanti (Elegância)

Vinde, amor, que é Carnaval,

Que a máscara veste

Essa vontade tão mundana, tão real

Um instante que me vejam,

Nessa noite, pedras serão

Cortem-me e me multiplicarão

Queimem-me; reacender-me-ão

Vinde, que essa noite

O segredo mergulhado

Renascerá

Despido, escancarado

Vinde e provai do poder

Da estranha

Abri-me toda

Sou a flor do despudor

Sou beija-flor

Eu sou Carnaval, amor.


segunda-feira, fevereiro 19

Gustave Klimt, Tragedia (1897-98)


Eu tive uma vida

que não era minha



um sono provisório eu dormia,

intersticial, cansado



sono claro



Eu tinha uma fome

que não tinha nome



apetite cordato,

passo inexato,

chão desapropriado



mexia-se em mim

um bicho vivo

de sopro quente;

dele, as pernas de gazela

que correram por mim

antes do fim


Ainda outras presas virão.



Já eu, não.



Quando eu puder dizer essa falta de ar que me rouba a noite;

Quando eu puder dizer esses fantasmas que me assombram o sonho;

Quando eu puder dizer essa chuva fina de dor que parece que nem molha;

Quando eu puder dizer esse calafrio de amor que eu não tive;

Quando eu puder dizer esse sacrifício que acreditou demais;

Quando eu puder dizer essa mudez dos meus gritos;

Quando eu puder dizer, o que vou ser?

terça-feira, janeiro 30

Penélope e os pretendentes
John William Waterhouse (1912)


Eu sempre imaginei que se eu pudesse perceber o mundo através de um corpo de homem, o mundo seria outro: mais robusto, talvez, seria um mundo com barba, com heróis - um mundo mais Ulisses do que Penélope, - um mundo com menos segredos também. Uma coisa que só sei dizer assim: com meus véus de mulher.

Seria um mundo paralelo, nem sei se me interessaria em saber como eu o perceberia se eu fosse homem, interessaria-me mais imaginar como seria ter a visão destes dois mundos ao mesmo tempo, poder visitar um mundo de outrem e depois voltar. Já pensaram?


Estou tecendo um manto de estrelas toda a noite
De tantos bordados que me olham lá de cima
Vou ficando pequenininha, pequenininha
Quando me canso é a saudade que me vem cerzir
Com mãos hábeis, une de uma ponta à outra
meu passado e meu futuro
Sempre tenho saudade de tudo

domingo, janeiro 28


Sabes, querido, se me olhas agora, depois do encanto
Verás que daquela de pele alva e gemidos leves -
que conversavam com teu abraço -
só sobraram os trapos, cabelos gastos,
olhos secos que pinicam.



Olympia, a velha boneca
jogada num canto - bem onde me deixaram.
Esqueceu seu nome - tanto tempo faz que já não me chamam.



A voz que te acariciava
ficou escura e sumiu no breu.
Daquela vontade de dançar;
nada.

Já ninguém pode mais me entender
agora.
Do fundo deste oco que eu tenho dentro
tem um choro de criança

que mal reconheço,
um pedido abafado e sozinho,
perdido no tempo.

quinta-feira, janeiro 25


Tem noites que não durmo:
Olhos secos se abrem contra a vontade,
Batimentos retumbam avessos ao descanso.
Faço um esforço para lembrar
O que tinha sonhado, não lembro.


Tem noites que não sonho:
Tudo é noite em mim
E nem eu me acompanho,
Só um cansaço ancestral de mulher que me dilui.
Sou eu, minha mãe, minha avó, minha bisavó.


Tem noites que não quero ser eu mesma. Nem quero que seja noite.
Mas ela não se vai, nem eu.
Ficamos nós duas ali.
Eu digo que tenho medo;
Ela, que guarda meu segredo.

E a lua espia tudo pela janela.




Lunações

Fonte: www.dl-digital.com

Hilda Hilst


De tanto te pensar, me veio a ilusão.
A mesma ilusão
Da égua que sorve a água pensando sorver a lua.
De te pensar me deito nas aguadas
E acredito luzir e estar atada
Ao fulgor do costado de um negro cavalo de cem luas.
De te sonhar, tenho nada,
Mas acredito em mim o ouro e o mundo.
De te amar, possuída de ossos e abismos
Acredito ter carne e vadiar
Ao redor dos teus cismos.
De nunca te tocar
Tocando os outros
Acredito ter mãos, acredito ter boca
Quando só tenho patas e focinho.
De muito desejar altura e eternidade
Me vem a fantasia de que Existo e Sou.
Quando sou nada: égua fantasmagórica
Sorvendo a lua n'água.

SYLVIA PLATH
Olmo

Sei o que há no fundo, ela diz. Conheço com minha própria raiz.

Era o que você temia.
Eu não: já estive lá.


É o mar que você ouve em mim,
Suas frustrações?
Ou a voz do vazio, essa é a sua loucura?


O amor é uma sombra.
Como você chora e mente por ele.
Ouça: estes são seus cascos; fugiram, como cavalos.


Vou galopar a noite inteira assim, impetuosa.
Até que sua cabeça vire pedra, seu travesseiro vire turfa,
Ecoando, ecoando.


Ou devo te trazer o borbulhar das poções?
Isso agora é chuva, esse silêncio imenso.
E este é seu fruto: branco-metálico, como arsênico.


Sofri a atrocidade dos poentes.
Queimada até as raízes
Meus filamentos ardem e ficam, emaranhado de arames.


Meus estilhaços se espalham em centelhas.
Um vento violento assim
Não suporta obstáculos: preciso gritar.


A lua, também, não tem pena de mim: me engole,
Cruel e estéril
Seus raios me arruínam. Ou quem sabe a peguei.


Eu a deixo fugir, fugir
Magra e minguante, como depois de uma cirurgia radical.
Seus pesadelos me enfeitam e me possuem.


Dentro de mim mora um grito.
De noite ele sai com suas garras, à caça
De algo para amar.


Sou torturada por essa coisa negra
Que dorme em mim;
O dia inteiro sinto seu roçar leve e macio, sua maldade.


Nuvens passam e se dissipam.
São estas as faces do amor, pálidas, irrecuperáveis?
Foi pra isso que atormentei meu coração?
Não consigo compreender além.



E o que é isso agora, essa cara
Assassina com seus galhos sufocantes? -


O beijo traiçoeiro da serpente.
Petrifica o desejo. Esses são os erros, solitários e lentos,
Que matam, matam, matam.


Lua Adversa
(Cecília Meireles)


TENHO FASES, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.


Fases que vão e que vêm,
no secreto calendárioque um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.



E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...

quarta-feira, janeiro 17

Vida Canhota


Faz tempo desde a última vez em que falei do meu cotidiano em tom confissional aqui. Estou com saudades, por isso mesmo resolvi inaugurar a primeira carta para este meu diário, neste novo ano. Comecei 2007 com uns contratempos meio chatos: primeiro, antes do Natal, esbarrei numa cadeira dentro do quarto e quase quebrei um dedinho do meu pé direito. O outro pezinho ficou enciumado e resolveu tirar a diferença: dias depois, estava eu na praia lavando louça e deixo cair uma fôrma de vidro refratário. Estilhaços afiadíssimos se espalharam por tudo. Um deles instalou-se em cima (e dentro) do meu pé esquerdo. Sangue por todo lado, hospital, médica anestesiando, fuçando à procura de vidro perdido, agulha, sutura...aiiiiiiiiii.

Pé direito e pé esquerdo estão quites.
Embora eu diria que o esquerdo sempre exagera na medida, mas como sou canhota tenho que fazer vista grossa.

Afinal os canhotos têm que ser solidários entre si, já que o mundo sempre esteve contra nós: as tesouras deixam anatomicamente declarada sua dedicação aos destros; assim também são as cadeiras com braço, do lado direito, para escrever, que encontramos nas escolas; os relógios (já tentou dar corda num relógio com a mão esquerda? Experimente pra ver o que acontece!); o câmbio de marcha dos automóveis; a posição standard das cordas dos violões; os leques; a posição das espirais dos cadernos de anotação (prontos para os destros inaugurarem comodamente a primeira página).

E essa lista ainda pode crescer e crescer com cada detalhezinho do nosso cotidiano que faz com um canhoto sinta que o mundo pode lhe oferecer instrumentos adaptados, mas o preço é sempre o mesmo: a percepção sempre confirmada de que o canhoto é uma inversão da "ordem" das coisas. Pois é, já nasci revolucionária. Quase indispensável dizer que perdoei meu pezinho esquerdo, né?