quarta-feira, março 19

Começo


Danae - Gustav Klimt


Volto a caminhar, olhando as ruas com uma atenção pensante, turbilhante, pulsante. Estou emagrecendo. Me sinto renovada pelo acelerado da vida, por parecer estar no ritmo das coisas; o trem passa, eu passo, tudo passa. Tic-Tac. Que bom, penso no alívio de saber que não temos a eternidade, com o tempo contado tudo já parece tão complicado. Imagine se nos sobrasse tempo.


Meu coração está batendo palavras que eu vou escrevendo aqui dentro, nesse meu livro incluso. Pois é, depois de tanto tempo de análise eu ainda tenho meus livros inclusos. Os sisos já resolvi, com broca, com tudo que foi necessário, foram arrancados, com dor. Nasceram mais ou menos como eu: pela força do fórceps. Mas os livros ainda não. Penso se tem alguém que queira ler. Será necessário ser lida, não quero me sentir inútil. Talvez eu seja uma leitora egoísta de mim mesma, não aposto na idéia de compartilhar. Só que eu tenho uma sede, a boca seca de tanto não-dizer, porque escrever pra dentro é um tipo de aborto. Choro o sentido soluçante das canções que falam por mim. O mundo está aí falando por mim, não quero mais deixar por isso mesmo.

Meu coração dói, poemas correm pelas veias, crônicas e conversas imaginadas circulam pelo corpo inteiro, a pele transpira um conto com personagens com os quais eu não conversei. Sou "muito fria", me dizem, sou fechada; eu não deixo nada sair nem entrar. Eu não falo com eles, os personagens, mas eles me assombram, ficam como fetos movendo-se, chutando, apertando, querendo vida.

Preciso confessar essa inibição, essa paralisia, esse meu pecado, meu deus: quem sabe rezo um pai-nosso, duas ave-marias. Quem sabe ainda conhecerei a fé.
Eu quero dizer que eu não consigo me dedicar a esse ato solitário e masturbante de usar a linguagem para o meu prazer. Meu prazer de dizer parece proibido. Tão meu e bem escondido, re-pri-mi-do. Vou soltar essa voz escrita em mim, porque já tenho medo de ficar sem voz. Tenho medo de ficar num beco sem saída. Não, não, eu não sou egoísta de verdade, antes eu disse isso como uma analisanda que quer dar um nó no analista. Tá bom, o nó é meu; eu sei, eu sei. Dedico-me a tudo e a todos pra não me entregar pra mim.


Mas eu avanço agora, estou a um passo, com uma determinação esquisita, assumo uma cadência cada vez mais rápida e a trilha vai sendo tão absolutamente minha. À minha volta vejo tudo como se fosse pela primeira vez. Todos os pilares dos trilhos do Trensurb, sob o qual caminho agora, têm escritos, têm autores, grafiteiros, anônimos, mestres da ousadia de um registro que se faz apesar de tudo e de todos. Quem precisa dizer, diz e pronto. É assim. Preciso aprender isso, não começa se eu não começar.


Num dos pilares encontrei algo que falou comigo (o mundo fala sempre algo por você se você não disser por si mesmo): "Às vezes quando erramos aprendemos coisas que jamais teríamos aprendido se tudo tivesse dado certo".


Eu quero dizer algo que faça - ou que faço - sentido pra mais alguém além de mim. Tá dando tanta coisa errada, que cresce em mim uma fé de que o que preciso aprender de tudo isso começa aqui. Na minha escriturbação.
Texto publicado no Jornal "Pois é", nº 15. Um novo começo.

quarta-feira, março 12

Sobre a queda das máscaras ou em defesa de um personagem secundário



Não vamos nos fazer de bobos: todos sabemos que usamos máscaras, vestimos as facetas que nos convêm nas ocasiões em que elas se encaixam. Tudo bem, nada mais humano, não é mesmo? Sermos mutantes, flexíveis, adaptados ao ambiente. A lei da seleção natural reforça a idéia de que o mais apto a sobreviver é justamente aquele que melhor consegue se adaptar, a biologia e a arqueologia nos ensinam a força dessa lógica. Mas ainda que me confesse uma fraca, até poderia dizer uma otária, para certos mestres da arte da adaptabilidade, eu sempre tenho comigo - cá entre nós, vou dizer bem baixinho só para meus amigos ouvirem - um grilo-falante.

Talvez vocês que me lêem agora, também tenham seu grilo-falante, juro que eu gostaria que me confirmassem isto, por favor: que vocês também são acompanhados, como eu, por aquela figurinha conhecida como um repressor que surge do nada no melhor da festa, justamente no momento crítico. Aquele que se ergue diante das tentações e dos oportunismos, que aconselha em nome da ética, ou mesmo até, do amor ao próximo (será que ainda podemos falar dele sem sermos utópicos ou meros papagaios cujos discursos e catequismos não coincidem com as ações cotidianas???).

O grilinho, para aqueles que o conhecem, aparece antes de nosso mergulho no ato para o qual nosso ser nos impeliria com toda sua sede, o mesmo ato que mancharia nossa história e destruiria alguma coisa boa dentro de nós, tornando-nos outros para sempre. Talvez ele até se contraponha à arte da adaptação de que falei antes. É possível que aqueles que não o conheçam sejam mais livres, tenham mais prazeres, permitam-se mais, ousem mais, arrisquem mais, calculem mais friamente uma vida voltada pra si mesmos e se concentrem na luta em causa própria com seu exército de um ego só.

Talvez o nosso amigo cri-cri não seja um super-herói, afinal, em nenhuma história que se possa contar. O grilo-falante é muitas vezes um algoz do nosso desejo e das nossas ilusões, e o que é pior, na visão dos empreendedores e ambiciosos: ele é apenas um coadjuvante. Mas os pinóquios que me perdoem - apesar da lógica do capitalismo selvagem, do amor livre e do descompromisso do ninguém é de ninguém, apesar dos contos de fadas e da moral da história estarem virando coisas do tempo da minha avó -, ouvir meu grilo-falante me faz buscar ser todos os dias uma pessoa melhor. E meu nariz não cresce quando eu falo com vocês agora, enfim, ele não cresce quando eu falo. Vai ver já deixei de viver uma vida de brinquedo ou de marionete e virei gente! Mesmo que seja uma espécie em extinção.