
Danae - Gustav Klimt
Volto a caminhar, olhando as ruas com uma atenção pensante, turbilhante, pulsante. Estou emagrecendo. Me sinto renovada pelo acelerado da vida, por parecer estar no ritmo das coisas; o trem passa, eu passo, tudo passa. Tic-Tac. Que bom, penso no alívio de saber que não temos a eternidade, com o tempo contado tudo já parece tão complicado. Imagine se nos sobrasse tempo.
Meu coração está batendo palavras que eu vou escrevendo aqui dentro, nesse meu livro incluso. Pois é, depois de tanto tempo de análise eu ainda tenho meus livros inclusos. Os sisos já resolvi, com broca, com tudo que foi necessário, foram arrancados, com dor. Nasceram mais ou menos como eu: pela força do fórceps. Mas os livros ainda não. Penso se tem alguém que queira ler. Será necessário ser lida, não quero me sentir inútil. Talvez eu seja uma leitora egoísta de mim mesma, não aposto na idéia de compartilhar. Só que eu tenho uma sede, a boca seca de tanto não-dizer, porque escrever pra dentro é um tipo de aborto. Choro o sentido soluçante das canções que falam por mim. O mundo está aí falando por mim, não quero mais deixar por isso mesmo.
Meu coração dói, poemas correm pelas veias, crônicas e conversas imaginadas circulam pelo corpo inteiro, a pele transpira um conto com personagens com os quais eu não conversei. Sou "muito fria", me dizem, sou fechada; eu não deixo nada sair nem entrar. Eu não falo com eles, os personagens, mas eles me assombram, ficam como fetos movendo-se, chutando, apertando, querendo vida.
Preciso confessar essa inibição, essa paralisia, esse meu pecado, meu deus: quem sabe rezo um pai-nosso, duas ave-marias. Quem sabe ainda conhecerei a fé.
Eu quero dizer que eu não consigo me dedicar a esse ato solitário e masturbante de usar a linguagem para o meu prazer. Meu prazer de dizer parece proibido. Tão meu e bem escondido, re-pri-mi-do. Vou soltar essa voz escrita em mim, porque já tenho medo de ficar sem voz. Tenho medo de ficar num beco sem saída. Não, não, eu não sou egoísta de verdade, antes eu disse isso como uma analisanda que quer dar um nó no analista. Tá bom, o nó é meu; eu sei, eu sei. Dedico-me a tudo e a todos pra não me entregar pra mim.
Mas eu avanço agora, estou a um passo, com uma determinação esquisita, assumo uma cadência cada vez mais rápida e a trilha vai sendo tão absolutamente minha. À minha volta vejo tudo como se fosse pela primeira vez. Todos os pilares dos trilhos do Trensurb, sob o qual caminho agora, têm escritos, têm autores, grafiteiros, anônimos, mestres da ousadia de um registro que se faz apesar de tudo e de todos. Quem precisa dizer, diz e pronto. É assim. Preciso aprender isso, não começa se eu não começar.
Num dos pilares encontrei algo que falou comigo (o mundo fala sempre algo por você se você não disser por si mesmo): "Às vezes quando erramos aprendemos coisas que jamais teríamos aprendido se tudo tivesse dado certo".
Eu quero dizer algo que faça - ou que faço - sentido pra mais alguém além de mim. Tá dando tanta coisa errada, que cresce em mim uma fé de que o que preciso aprender de tudo isso começa aqui. Na minha escriturbação.
Texto publicado no Jornal "Pois é", nº 15. Um novo começo.

