
Estou com uma coisa me apertando o pescoço. Sabe aquele nó na garganta? Pois é, eu tenho isso. Mas não é exatamente uma expressão idiomática, um sentido figurado, uma metáfora. Como boa histérica, claro que o meu nó é literal, ou melhor: corporal. É um nó-dulo. Um nó-dulo da tireóide. Aliás, ele não está sozinho. Eles já são dois; logo de saída o nó já trouxe companhia. Um nó-dulo acompanhado. Eu não esperava encontrá-los, nem sentia nadica de diferente, foi bem por acaso que acabei fazendo um exame por causa das tais gripes que me rondavam e vim a saber que eles estavam lá, crescendo, apertando a garganta devagarinho. Enquanto fazia outros exames pra saber se eles eram nó-dulos do bem ou do mal, passaram-se dias em que li um zilhão de coisas sobre estes nós. Pessoas que ficam com a metade da tireóide e se livram dos nós, pessoas que aprendem a viver sem a tireóide e pessoas que tem nós do mal e que precisam ser controlados mesmo depois de serem retirados. Tanta coisa sobre nós. Tanto de nós que eu li, revi e lembrei. Tantos nós em mim. Como foram parar todos esses nós aqui dentro de mim? Descobri, nas minhas leituras insones, que a tireóide é simbolizada por uma borboleta, que é o bichinho que lembra a sua forma: ela abraça a nossa traquéia com suas duas asas. Talvez eu tenha que ficar sem uma metade da minha borboleta. Parece que é o único jeito de me livrar do nó-dulo, que é do bem, mas pode mudar de idéia. E não queremos que ele mude de idéia. De jeito nenhum. Agora, é o seguinte: com uma borboleta pela metade, ficará a vida menos colorida? Espero que não, porque eu sou fã do Klimt. Vocês já notaram, né?
