
Faz tempo desde a última vez em que falei do meu cotidiano em tom confissional aqui. Estou com saudades, por isso mesmo resolvi inaugurar a primeira carta para este meu diário, neste novo ano. Comecei 2007 com uns contratempos meio chatos: primeiro, antes do Natal, esbarrei numa cadeira dentro do quarto e quase quebrei um dedinho do meu pé direito. O outro pezinho ficou enciumado e resolveu tirar a diferença: dias depois, estava eu na praia lavando louça e deixo cair uma fôrma de vidro refratário. Estilhaços afiadíssimos se espalharam por tudo. Um deles instalou-se em cima (e dentro) do meu pé esquerdo. Sangue por todo lado, hospital, médica anestesiando, fuçando à procura de vidro perdido, agulha, sutura...aiiiiiiiiii.
Pé direito e pé esquerdo estão quites.
Embora eu diria que o esquerdo sempre exagera na medida, mas como sou canhota tenho que fazer vista grossa.
Afinal os canhotos têm que ser solidários entre si, já que o mundo sempre esteve contra nós: as tesouras deixam anatomicamente declarada sua dedicação aos destros; assim também são as cadeiras com braço, do lado direito, para escrever, que encontramos nas escolas; os relógios (já tentou dar corda num relógio com a mão esquerda? Experimente pra ver o que acontece!); o câmbio de marcha dos automóveis; a posição standard das cordas dos violões; os leques; a posição das espirais dos cadernos de anotação (prontos para os destros inaugurarem comodamente a primeira página).
E essa lista ainda pode crescer e crescer com cada detalhezinho do nosso cotidiano que faz com um canhoto sinta que o mundo pode lhe oferecer instrumentos adaptados, mas o preço é sempre o mesmo: a percepção sempre confirmada de que o canhoto é uma inversão da "ordem" das coisas. Pois é, já nasci revolucionária. Quase indispensável dizer que perdoei meu pezinho esquerdo, né?

Um comentário:
viva a inversão da ordem!, rs. que bom que voltou a escrever...
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