domingo, julho 13

Caminhos







“Nel mezzo del cammin di nostra vita

Mi ritrovai por una selva oscura

Chè la diritta via era smaritta.”


Dante Alighieri, A Divina Comédia, Canto I


"No meio do caminho de nossa vida/ Encontrei-me numa selva escura/Tendo perdido a verdadeira estrada."

Imagem: Gustave Doré , L'Enfer.

Você passou por mim rapidamente, levando o carrinho cheio de compras do supermercado e eu dobrava a esquina, também com pressa; aquela pressa que cresce quando quase estamos chegando em casa e o peso das compras penduradas pelas mãos vão virando toneladas, subitamente.

Eu encontrei teu sorriso inocente e generoso e o cumprimentei naquela esquina, falei algo vazio e vago sobre nosso vai-e-vem com as compras, só para dar um "oi " sem ter de nos fazer parar aquele compasso e aquele ritmo que nenhuma das duas parecia pretender brecar. E seguimos em frente sem olhar pra trás no turbilhão das horas, das tarefas e dos caminhos que temos para escolher.

A tal esquina em que nos encontramos fica em frente à "Praça dos brinquedos", sempre gostei de vir brincar nessa praça quando criança, era um dos meus lugares favoritos, eu amava andar de balanço. Balançar-me fazia com que me sentisse mais livre e mais leve e era um dos poucos brinquedos que eu não temia. Todas essas lembranças vieram a mim quando fiquei sabendo da sua morte.

Andei vivendo uns dias que pareciam, no contexto daquele último dia em que te vi, um inferno. Sempre temos algumas visitas ao inferno quando as coisas estão dando errado para nós, na nossa ótica momentânea. Descubro, algumas vezes, com o passar do tempo, que certos sofrimentos vêem para indicar caminhos em princípio confusos e que não sabemos se levam à estrada certa. Talvez os infernos sejam somente imagens do aprendizado pelo qual pagamos um preço, uma imagem do aprender que dói e que custa caro.

Minha mãe me ligou e me disse que você morreu. Aí me contou que você terminou com sua vida. Como me doeu saber desta notícia, você que era uma pessoa de quem não poderia dizer que cheguei a ser amiga, mas que eu gostava e admirava por qualidades que eu pensava perceber em você nos poucos momentos em que conversamos, tão recentemente.

Pensei em tudo o que eu poderia ter dito pra você ao invés daquela frase vazia e apresssada naquele dia, chorei tão sentidamente e me senti tão solidária desse caminho que você escolheu, não sei com que grau de lucidez. Mas saber disso me fez querer e acreditar ainda menos no mundo. Pensei em quantas coisas nós deixamos de fazer pelas outras pessoas e com as outras pessoas, porque simplesmente não as vemos com atenção, nem temos tempo para ouvi-las. Eu só enxergava seu sorriso quando a via e sua simplicidade e autenticidade, de cabelos grisalhos e sem maquiagens, sem mentiras; eu via seu olhar puro. Nunca pensei que seu olhar podia ser desprotegido. Ou que seu olhar poderia ser definido por amarguras, que poderia ser pesado por detrás das cortinas leves do sorriso. Meu Deus, como somos misteriosos e insondáveis!

O diálogo é na verdade um caminho feito de sombras, uma selva escura. Sempre estamos perdidos no diálogo e nos encontros. Que solidão eu senti quando pensei nisto. Estou tão só. Sua morte me deixou ainda mais. Escrevo essas coisas para me balançar um pouquinho. Talvez você tenha brincado no balanço também. Quem sabe? Cada um tem seus balanços na vida.

Um beijo, minha quase amiga.

2 comentários:

Leonardo Silveira Handa disse...

Que triste. Uma tristeza linda para se recordar, não no sentido depressivo, mas no continuar gritando de uma lembrança não terminada. Muito bonito.
Bom, quanto ao livro, ainda estou desenvolvendo. Acho que já reeditei umas 11 vezes. Sempre morro um pouco, porém, vou renovando. Vamos conversar a respeito. Estou super curioso com o seu.
Beijos de saudade.

Renato Tardivo disse...

olá. que triste e que bonito. me lembrei de um filme chamado "nine lives", acho que traduziram como "questão de vida".

encontros que, ao não acontecer, têm lugar de forma arrebatadora no invisível. fiquei um pouco triste e muito feliz com seu comentário, rs.

um beijo.