
A vida tem umas coincidências que, às vezes, dão aquela forte impressão na gente de que não podem ser mero fruto do acaso. Parece existir uma força de atração entre as coisas e as pessoas, entre idéias e sensações, momentos e canções. Como naquela canção do Milton Nascimento: "Eu só sei que há momento que se casa com canção, de fazer tal casamento vive a minha profissão".
Tem muita música que vira trilha sonora de um romance, de um dia especial que se viveu, de um momento que - mesmo não tendo sido fotografado ou mesmo não sendo mais ligado ao nosso presente - fica lá no coração registrado. Sempre que ouvir a tal música, pimba. Você lembra de tudo como se tivesse sido ontem. Tem canções que parecem que lêem o pensamento da gente. Como é que pode o Renato Russo ter entrado na minha cabeça e adivinhado que eu ia pensar isso um dia? Eu canto em uníssono com ele: "Você culpa seus pais por tudo e isso é absurdo. São crianças como você, o que você vai ser quando você crescer." Como pode ele ter adivinhado que, por uma série de acontecimentos na minha vida, eu perceberia que "é preciso amar como se não houvesse amanhã, porque na verdade não há"? O presente é tudo que temos, mas uma canção do passado torna tudo tão presente que chega a ser estonteante.
Ver a realidade de um jeito que encontra ressonância no olhar de tanta gente é uma verdadeira arte. Eu sou professora e, de certo modo, também tento fazer isso, para ensinar e aprender é preciso confundir as fronteiras entre o eu e o você. Como encontrar palavras que falem para cada alma e cada coração em especial? Como fazer com que cada "você" empregado no texto não seja um mero pronome, um espaço vazio que pode ser ocupado por qualquer leitor em potencial? Ao contrário, o que se quer é justamente tornar esse "você" um fogo de artifício, uma explosão reveladora que resulta na impressão inabalável de que o que se está dizendo não é pra um alguém abstrato e anônimo, é pra mim, eu mesmo que estou aqui lendo agora, em carne e osso! Claro que, ao mesmo tempo, sempre sobra algo no encontro da mensagem de uma música (ou de um texto, uma obra estética). Essa sobra gera uma espécie de distanciamento que, por vezes, é um conforto que chega depois da catarse do encontro com a dor e o amor ficcional, chega depois da descoberta de que o sentido do outro é também um pouco meu. Mas não todo. Sobra um espaço para eu respirar, para descolar, algo que fica por dizer.
Eu sou eu, você é você. Mas nessa lei da atração que vem da arte, as fronteiras se esfumam, se diluem e eu "quero ver flores em você", como um sujeito apaixonado, confundo-me com o outro. Ler e ouvir música são atos de paixão. São atos de ilusão, também, mas desses que fazem parte de um presente que a gente quer lembrar depois. E se eu fosse fazer uma prece, assim como que para me contagiar desse poder de traduzir as pessoas em palavras ao vento, palavras impressas, dispersas, imersas, iria usar mais uma inspiração musical, bem ao sabor da atualidade de um som que embalou muitos momentos memoráveis da minha geração e diria assim: "Quero te dizer a palavra certa, como o novo dia que vai nascer em um segundo"... Mas eu sei que a palavra é sempre incerta e titubeante. O jeito é encarar tudo isso como um eterno ensaio de diálogo com as outras pessoas. Muitas músicas e muitas palavras virão, daqui pra sempre.
Tem muita música que vira trilha sonora de um romance, de um dia especial que se viveu, de um momento que - mesmo não tendo sido fotografado ou mesmo não sendo mais ligado ao nosso presente - fica lá no coração registrado. Sempre que ouvir a tal música, pimba. Você lembra de tudo como se tivesse sido ontem. Tem canções que parecem que lêem o pensamento da gente. Como é que pode o Renato Russo ter entrado na minha cabeça e adivinhado que eu ia pensar isso um dia? Eu canto em uníssono com ele: "Você culpa seus pais por tudo e isso é absurdo. São crianças como você, o que você vai ser quando você crescer." Como pode ele ter adivinhado que, por uma série de acontecimentos na minha vida, eu perceberia que "é preciso amar como se não houvesse amanhã, porque na verdade não há"? O presente é tudo que temos, mas uma canção do passado torna tudo tão presente que chega a ser estonteante.
Ver a realidade de um jeito que encontra ressonância no olhar de tanta gente é uma verdadeira arte. Eu sou professora e, de certo modo, também tento fazer isso, para ensinar e aprender é preciso confundir as fronteiras entre o eu e o você. Como encontrar palavras que falem para cada alma e cada coração em especial? Como fazer com que cada "você" empregado no texto não seja um mero pronome, um espaço vazio que pode ser ocupado por qualquer leitor em potencial? Ao contrário, o que se quer é justamente tornar esse "você" um fogo de artifício, uma explosão reveladora que resulta na impressão inabalável de que o que se está dizendo não é pra um alguém abstrato e anônimo, é pra mim, eu mesmo que estou aqui lendo agora, em carne e osso! Claro que, ao mesmo tempo, sempre sobra algo no encontro da mensagem de uma música (ou de um texto, uma obra estética). Essa sobra gera uma espécie de distanciamento que, por vezes, é um conforto que chega depois da catarse do encontro com a dor e o amor ficcional, chega depois da descoberta de que o sentido do outro é também um pouco meu. Mas não todo. Sobra um espaço para eu respirar, para descolar, algo que fica por dizer.
Eu sou eu, você é você. Mas nessa lei da atração que vem da arte, as fronteiras se esfumam, se diluem e eu "quero ver flores em você", como um sujeito apaixonado, confundo-me com o outro. Ler e ouvir música são atos de paixão. São atos de ilusão, também, mas desses que fazem parte de um presente que a gente quer lembrar depois. E se eu fosse fazer uma prece, assim como que para me contagiar desse poder de traduzir as pessoas em palavras ao vento, palavras impressas, dispersas, imersas, iria usar mais uma inspiração musical, bem ao sabor da atualidade de um som que embalou muitos momentos memoráveis da minha geração e diria assim: "Quero te dizer a palavra certa, como o novo dia que vai nascer em um segundo"... Mas eu sei que a palavra é sempre incerta e titubeante. O jeito é encarar tudo isso como um eterno ensaio de diálogo com as outras pessoas. Muitas músicas e muitas palavras virão, daqui pra sempre.

2 comentários:
essa relação simbiótica com a arte é uma das coisas mais bacanas da vida. chega a ser dolorido, mas colorido também.
bjo, flor.
viva a comunicação!
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