Tem mudança que acontece que é pra bem e outras que não. Quando olho na distância do tempo essa mulher - cabelos longos, lisos e negros de índia, rosto anguloso e temperamento difícil - pergunto-me que mudança foi essa para ela. Mudou-se um dia, como aqui se diz, "de mala e cuia", saindo do frio da serra e da terra da família para seguir com o marido pro Vale do Sinos. Sina de mulher. A vida como a vida era. Os negócios eram dos homens e as decisões também, mundo de mulher era longe das letras e perto do fogão, do bordado e da filharada. No fim das contas, quando tudo terminou, será que se pode acreditar que o viver seria algum tipo de lição, que teria um porquê ou todas as razões seriam apenas invenção? Essa invenção de a sorte ou o azar ter de fazer sentido.
Umas coincidências na sua história chamam muito minha atenção, como o fato de a valsa que ela mais gostava ter tanto a dizer sobre sua vida, talvez até mesmo antes de ela vir a saber disto. Não sei qual foi a ordem dos acontecimentos, eu a conheci muito mais tarde. Lembro do cheiro bom da sua cozinha e da resistência em me segredar algo sobre o preparo dos pratos que eu gostava tanto, ao mesmo tempo, não esqueço da sua expressão de prazer ao ver como era apreciada toda e qualquer iguaria que ela oferecia pra gente. Lembro de ela me fazer muitos mimos mexendo e escovando meus cabelos que ela me dizia que eram bonitos. Vou deixá-la contar um pouco sobre si mesma, como se ainda estivesse entre nós, que certos fantasmas pedem voz para falar em datas especiais.
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Umas coincidências na sua história chamam muito minha atenção, como o fato de a valsa que ela mais gostava ter tanto a dizer sobre sua vida, talvez até mesmo antes de ela vir a saber disto. Não sei qual foi a ordem dos acontecimentos, eu a conheci muito mais tarde. Lembro do cheiro bom da sua cozinha e da resistência em me segredar algo sobre o preparo dos pratos que eu gostava tanto, ao mesmo tempo, não esqueço da sua expressão de prazer ao ver como era apreciada toda e qualquer iguaria que ela oferecia pra gente. Lembro de ela me fazer muitos mimos mexendo e escovando meus cabelos que ela me dizia que eram bonitos. Vou deixá-la contar um pouco sobre si mesma, como se ainda estivesse entre nós, que certos fantasmas pedem voz para falar em datas especiais.
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Minha música preferida é Saudades de Matão. Traduz uma coisa que eu sinto aqui dentro, essa dor. Dói não saber direito o que foi feito do meu amor. Eu carrego essa tristeza do meu jeito, ficou tudo tão misturado na mudança. A mudança na minha vida começou com mudança de lugar pra morar e dum dia pro outro virou mudança no sonhar. Quero dizer é que um dia não deu mais pra sonhar.
Os criados, o dinheiro, o marido; vi tudo perdido, extraviado. Assim é quando o seu marido é dado como sumido. Desaparecido. Coisa difícil de entender, um dia saiu para fazer negócios e nunca mais voltou. Onze filhos pra criar, eu só sabia cozinhar. Comida da roça sabia fazer, nada demais, mas era boa. Feijãozinho cheiroso com manjerona e louro, farofa de repolho, broa de polvilho, pão caseiro, bolinho de arroz com salsinha da horta. De todas as terras que tinha, sobrou só um cantinho no quintal do lado da parede da cozinha, no corredor espremido: louro, manjerona, hortelã, salsinha, cebolinha, estava aí alguma coisa dos meus segredos com os temperos. Não deixei de herança pra ninguém, que não era do meu desejo. Pode ser que eu queria deixar saudade. Tem um jeito de você saber se vai deixar saudade? Tem que levar algum segredo desse junto quando virar "flor peregrina" no céu.
Fazia rapadura e doces, os guris iam vender; comiam carne que sobrava do matadouro onde iam ajudar a limpar; uma trabalheira cheia de dificuldade. Os mais velhos ensinavam os mais novos, se fazendo de pai. Não dava muito certo, que entre irmãos tem muita competição. Eu estava cheia de filho e tão sozinha, tinha minhas mania: tinha dia que tudo doía, doía o sol lá fora, o corpo na cama, os pulmões respirando, tudo tinha essa dor e todo mundo que viesse ajudar, não adiantava. Eu podia gritar que não saía de mim isso. Não adiantava chá, nem reza, nem amor de filha.
Podia ser egoísta, mas era uma dor minha assim sem fim. Eu não sei como ele se foi, mas o que mata a gente aos poucos é a espera até saber que não vem mais. Quando a gente sabe que não vem mais? A gente vai morrendo de esperar todo dia um pouco mais. E como se pára de se perguntar se ele ia voltar ou se saiu convicto a abandonar? É dessa dor em mim que eu tinha hoje aqui que contar, que talvez não fui boa mãe tendo essas coisas perdidas do passado que não passou. Um amor morto que não se enterrou.
Pode ser que ninguém entendia que eu sentia com cada filho que se ia casar o calafrio na espinha da solidão de ser deixada. Eu não queria, mas revivia. Toda nora que eu tinha era como aquela mulher que eu imaginava, numa infinita onda de suspeita, que quem sabe existia em algum lugar, que era a paixão dele, aquela por quem ele teria me trocado.
Minha música eu cantei todos os dias, "eu lamento minha desventura nessa grande dor". Até que um dia fui deixando de ouvir e de cantar e segui deixando de fazer muita coisa até que esse coração grande foi me sufocando, cada vez mais foi crescendo de tanto viver e sentir e explodiu num instante em que já não pôde mais bater por ninguém. Mas eu esperei que cada filho chegasse para poder partir sem os abandonar.

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