sexta-feira, julho 25
O Livro do Coração
Alfonsina Storni
FRENTE AL MAR
Oh mar, enorme mar, corazón fiero
De ritmo desigual, corazón malo,
Yo soy más blanda que ese pobre palo
Que se pudre en tus ondas prisionero.
Oh mar, dame tu cólera tremenda,
Yo me pasé la vida perdonando,
Porque entendía, mar, yo me fui dando:
«Piedad, piedad para el que más ofenda».
Vulgaridad, vulgaridad me acosa.
Ah, me han comprado la ciudad y el hombre.
Hazme tener tu cólera sin nombre:
Ya me fatiga esta misión de rosa.
¿Ves al vulgar? Ese vulgar me apena,
Me falta el aire y donde falta quedo,
Quisiera no entender, pero no puedo:
Es la vulgaridad que me envenena.
Me empobrecí porque entender abruma,
Me empobrecí porque entender sofoca,
¡Bendecida la fuerza de la roca!
Yo tengo el corazón como la espuma.
Mar, yo soñaba ser como tú eres,
Allá en las tardes que la vida mía
Bajo las horas cálidas se abría...
Ah, yo soñaba ser como tú eres.
Mírame aquí, pequeña, miserable,
Todo dolor me vence, todo sueño;
Mar, dame, dame el inefable empeño
De tornarme soberbia, inalcanzable.
Dame tu sal, tu yodo, tu fiereza.
¡Aire de mar!... ¡Oh, tempestad! ¡Oh enojo!
Desdichada de mí, soy un abrojo,
Y muero, mar, sucumbo en mi pobreza.
Y el alma mía es como el mar, es eso,
Ah, la ciudad la pudre y la equivoca;
Pequeña vida que dolor provoca,
¡Que pueda libertarme de su peso!
Vuele mi empeño, mi esperanza vuele...
La vida mía debió ser horrible,
Debió ser una arteria incontenible
Y apenas es cicatriz que siempre duele.
terça-feira, julho 22
Vulcões

Tudo é frio e gelado. O gume dum punhal
No entanto que fogo, que lavas, a montanha
No gelo da indiferença ocultam-se as paixões
Assim quando eu te falo alegre, friamente,
Florbela Espanca
domingo, julho 13
Caminhos

quarta-feira, maio 21
Agora
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Às Vezes Tudo se Ilumina
(Mario Quintana)
Às vezes tudo se ilumina de uma intensa irrealidade
E é como se agora este pobre, este único, este efêmero instante do mundo
Estivesse pintado numa tela, sempre...
Nesse meu agora, assisto impotente a uma luta pela vida: eu penso, penso, penso. Como quem analisa um teorema. Penso na minha impotência, na da medicina, na da humanidade. Penso na efemeridade realmente irreal da vida.
Eu sinto o difícil que é admitir que tudo se vai um dia, que a gente se vai. Sinto isso na náusea que está em ti e acaba nascendo em mim também, compartilho da tua náusea e o agora fica quase insuportável porque eu não quero te perder e fico mareada de tanto pensar. Tem que passar isso, eu queria que amanhã já fosse hoje e tudo fosse para o seu devido lugar.
Que infantilidade, não é? Sou muito infantil quando sofro. Sou infantil, assim, no sentido de que vejo tudo como se fosse pela primeira vez. Como se eu já não soubesse. Eu experimento um estranhamento, como se a minha rua tivesse mudado de lugar, como se as coisas na minha casa eu já não soubesse onde achar, como se girássemos ao contrário no espaço e tudo estivesse fora da ordem, como quem acaba de chegar. E continua se espalhando essa náusea nesse instante, me embrulha o pensamento e preciso expulsar o medo em golfadas. Sinto o peso da espera.
Acho que espero um instante em que tudo se ilumine de uma outra coisa menos irreal.
sábado, maio 17
Uma música na cabeça
domingo, maio 11
Peregrina flor
Umas coincidências na sua história chamam muito minha atenção, como o fato de a valsa que ela mais gostava ter tanto a dizer sobre sua vida, talvez até mesmo antes de ela vir a saber disto. Não sei qual foi a ordem dos acontecimentos, eu a conheci muito mais tarde. Lembro do cheiro bom da sua cozinha e da resistência em me segredar algo sobre o preparo dos pratos que eu gostava tanto, ao mesmo tempo, não esqueço da sua expressão de prazer ao ver como era apreciada toda e qualquer iguaria que ela oferecia pra gente. Lembro de ela me fazer muitos mimos mexendo e escovando meus cabelos que ela me dizia que eram bonitos. Vou deixá-la contar um pouco sobre si mesma, como se ainda estivesse entre nós, que certos fantasmas pedem voz para falar em datas especiais.
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Minha música preferida é Saudades de Matão. Traduz uma coisa que eu sinto aqui dentro, essa dor. Dói não saber direito o que foi feito do meu amor. Eu carrego essa tristeza do meu jeito, ficou tudo tão misturado na mudança. A mudança na minha vida começou com mudança de lugar pra morar e dum dia pro outro virou mudança no sonhar. Quero dizer é que um dia não deu mais pra sonhar.
Os criados, o dinheiro, o marido; vi tudo perdido, extraviado. Assim é quando o seu marido é dado como sumido. Desaparecido. Coisa difícil de entender, um dia saiu para fazer negócios e nunca mais voltou. Onze filhos pra criar, eu só sabia cozinhar. Comida da roça sabia fazer, nada demais, mas era boa. Feijãozinho cheiroso com manjerona e louro, farofa de repolho, broa de polvilho, pão caseiro, bolinho de arroz com salsinha da horta. De todas as terras que tinha, sobrou só um cantinho no quintal do lado da parede da cozinha, no corredor espremido: louro, manjerona, hortelã, salsinha, cebolinha, estava aí alguma coisa dos meus segredos com os temperos. Não deixei de herança pra ninguém, que não era do meu desejo. Pode ser que eu queria deixar saudade. Tem um jeito de você saber se vai deixar saudade? Tem que levar algum segredo desse junto quando virar "flor peregrina" no céu.
Fazia rapadura e doces, os guris iam vender; comiam carne que sobrava do matadouro onde iam ajudar a limpar; uma trabalheira cheia de dificuldade. Os mais velhos ensinavam os mais novos, se fazendo de pai. Não dava muito certo, que entre irmãos tem muita competição. Eu estava cheia de filho e tão sozinha, tinha minhas mania: tinha dia que tudo doía, doía o sol lá fora, o corpo na cama, os pulmões respirando, tudo tinha essa dor e todo mundo que viesse ajudar, não adiantava. Eu podia gritar que não saía de mim isso. Não adiantava chá, nem reza, nem amor de filha.
Podia ser egoísta, mas era uma dor minha assim sem fim. Eu não sei como ele se foi, mas o que mata a gente aos poucos é a espera até saber que não vem mais. Quando a gente sabe que não vem mais? A gente vai morrendo de esperar todo dia um pouco mais. E como se pára de se perguntar se ele ia voltar ou se saiu convicto a abandonar? É dessa dor em mim que eu tinha hoje aqui que contar, que talvez não fui boa mãe tendo essas coisas perdidas do passado que não passou. Um amor morto que não se enterrou.
Pode ser que ninguém entendia que eu sentia com cada filho que se ia casar o calafrio na espinha da solidão de ser deixada. Eu não queria, mas revivia. Toda nora que eu tinha era como aquela mulher que eu imaginava, numa infinita onda de suspeita, que quem sabe existia em algum lugar, que era a paixão dele, aquela por quem ele teria me trocado.
Minha música eu cantei todos os dias, "eu lamento minha desventura nessa grande dor". Até que um dia fui deixando de ouvir e de cantar e segui deixando de fazer muita coisa até que esse coração grande foi me sufocando, cada vez mais foi crescendo de tanto viver e sentir e explodiu num instante em que já não pôde mais bater por ninguém. Mas eu esperei que cada filho chegasse para poder partir sem os abandonar.
sábado, maio 10
João Guimarães Rosa
Fonte: http://www.germinaliteratura.com.br/pcruzadas_guimaraesrosa_ago2006.htm
sábado, abril 26
Desnuda

Falo comigo mesma
quinta-feira, abril 10
"Eu vejo flores em você"

Tem muita música que vira trilha sonora de um romance, de um dia especial que se viveu, de um momento que - mesmo não tendo sido fotografado ou mesmo não sendo mais ligado ao nosso presente - fica lá no coração registrado. Sempre que ouvir a tal música, pimba. Você lembra de tudo como se tivesse sido ontem. Tem canções que parecem que lêem o pensamento da gente. Como é que pode o Renato Russo ter entrado na minha cabeça e adivinhado que eu ia pensar isso um dia? Eu canto em uníssono com ele: "Você culpa seus pais por tudo e isso é absurdo. São crianças como você, o que você vai ser quando você crescer." Como pode ele ter adivinhado que, por uma série de acontecimentos na minha vida, eu perceberia que "é preciso amar como se não houvesse amanhã, porque na verdade não há"? O presente é tudo que temos, mas uma canção do passado torna tudo tão presente que chega a ser estonteante.
Ver a realidade de um jeito que encontra ressonância no olhar de tanta gente é uma verdadeira arte. Eu sou professora e, de certo modo, também tento fazer isso, para ensinar e aprender é preciso confundir as fronteiras entre o eu e o você. Como encontrar palavras que falem para cada alma e cada coração em especial? Como fazer com que cada "você" empregado no texto não seja um mero pronome, um espaço vazio que pode ser ocupado por qualquer leitor em potencial? Ao contrário, o que se quer é justamente tornar esse "você" um fogo de artifício, uma explosão reveladora que resulta na impressão inabalável de que o que se está dizendo não é pra um alguém abstrato e anônimo, é pra mim, eu mesmo que estou aqui lendo agora, em carne e osso! Claro que, ao mesmo tempo, sempre sobra algo no encontro da mensagem de uma música (ou de um texto, uma obra estética). Essa sobra gera uma espécie de distanciamento que, por vezes, é um conforto que chega depois da catarse do encontro com a dor e o amor ficcional, chega depois da descoberta de que o sentido do outro é também um pouco meu. Mas não todo. Sobra um espaço para eu respirar, para descolar, algo que fica por dizer.
Eu sou eu, você é você. Mas nessa lei da atração que vem da arte, as fronteiras se esfumam, se diluem e eu "quero ver flores em você", como um sujeito apaixonado, confundo-me com o outro. Ler e ouvir música são atos de paixão. São atos de ilusão, também, mas desses que fazem parte de um presente que a gente quer lembrar depois. E se eu fosse fazer uma prece, assim como que para me contagiar desse poder de traduzir as pessoas em palavras ao vento, palavras impressas, dispersas, imersas, iria usar mais uma inspiração musical, bem ao sabor da atualidade de um som que embalou muitos momentos memoráveis da minha geração e diria assim: "Quero te dizer a palavra certa, como o novo dia que vai nascer em um segundo"... Mas eu sei que a palavra é sempre incerta e titubeante. O jeito é encarar tudo isso como um eterno ensaio de diálogo com as outras pessoas. Muitas músicas e muitas palavras virão, daqui pra sempre.
quarta-feira, março 19
Começo

quarta-feira, março 12
Sobre a queda das máscaras ou em defesa de um personagem secundário

sexta-feira, dezembro 14
And so this is Christmas
Incrível como o tempo voa, a gente costuma dizer por aí, "o tempo passa", olhei minhas fotografias do Natal do ano passado faz pouco e me assustei, já é Natal de novo! Tempo dos tais balanços de vida, acho que todo mundo faz isso, nossa velha e boa neurose de sofrer pelo que não tivemos tempo de fazer e também pelo tempo que desperdiçamos sem fazer nada, com os prazeres e as preguiças. Meus cabelos brancos aumentaram muito, segundo meu cabeleireiro e meu namorado - são os únicos que enxergam as raízes branquinhas que vão se misturando, invadindo mesmo, por entre os castanhos de antigamente. O envelhecimento é uma coisa muito esquisita, ontem eu estava jantando com amigos e entramos nesse tema do estranhamento.
A gente se estranha diante de certas marcas do tempo, como se aparecessem assim, de repente, em nós. Um amigo dizia que "não pode" deixar a barba crescer, porque já está toda branca. Eu ri e lhe contei que meu cabeleireiro falou que "estavam aumentando horrorosamente os branquinhos na raiz" - dia destes, antes de colocar minha tintura - e eu gritei logo pra ele, nada dissso! Não me conta, não me conta! Prefiro a ignorância... deixa meus ruivos em paz, pra todos os efeitos.
Na verdade, disse no jantar de ontem e digo de novo aqui, eu ainda sou uma adolescente. Como na música aquela: "quem sabe ainda sou uma garotinha...". Eu ainda sou fã do Legião Urbana e lembro como se tivesse sido ontem do show deles que eu assisti quando tinha 16, num frio de rachar, fui pra ver o Renato Russo, aquela voz sem limites, aquele jeito revoltado de dançar, uma certa raiva do mundo que eu entendia tão bem naquela época. E entendo. Sempre.
Eu não deixei de ser a adolescente que usava pó compacto pra disfarçar as espinhas do rosto, que gostava de cantar e podia passar horas só fazendo isto sem sentir o tempo passar. Ainda sou aquela garota que ri meio atrasada das piadas que me contam, a "faísca atrasada", a mesma que adorava dançar com um boa dose de exotismo (tentando imitar o Renato Russo) e podia seguir dançando por noites inteiras, quase até o amanhecer, sem ficar semi-entrevada no dia seguinte.
Como pode ser que eu seja ao mesmo tempo essa adolescente por dentro, com cabelos brancos e dor no ciático por fora? São incongruências da vida. A vida é irônica com a gente, uma verdadeira cínica, cheia de sombras na parede da caverna, a gente fica lá, meio tonto, olhando de um ângulo pra outro a tal realidade do mundo e da gente. Enquanto passatempo.
quarta-feira, outubro 24
A Arte e os Olhares Digitais
terça-feira, agosto 28
Sobre borboletas, nós e metades

Estou com uma coisa me apertando o pescoço. Sabe aquele nó na garganta? Pois é, eu tenho isso. Mas não é exatamente uma expressão idiomática, um sentido figurado, uma metáfora. Como boa histérica, claro que o meu nó é literal, ou melhor: corporal. É um nó-dulo. Um nó-dulo da tireóide. Aliás, ele não está sozinho. Eles já são dois; logo de saída o nó já trouxe companhia. Um nó-dulo acompanhado. Eu não esperava encontrá-los, nem sentia nadica de diferente, foi bem por acaso que acabei fazendo um exame por causa das tais gripes que me rondavam e vim a saber que eles estavam lá, crescendo, apertando a garganta devagarinho. Enquanto fazia outros exames pra saber se eles eram nó-dulos do bem ou do mal, passaram-se dias em que li um zilhão de coisas sobre estes nós. Pessoas que ficam com a metade da tireóide e se livram dos nós, pessoas que aprendem a viver sem a tireóide e pessoas que tem nós do mal e que precisam ser controlados mesmo depois de serem retirados. Tanta coisa sobre nós. Tanto de nós que eu li, revi e lembrei. Tantos nós em mim. Como foram parar todos esses nós aqui dentro de mim? Descobri, nas minhas leituras insones, que a tireóide é simbolizada por uma borboleta, que é o bichinho que lembra a sua forma: ela abraça a nossa traquéia com suas duas asas. Talvez eu tenha que ficar sem uma metade da minha borboleta. Parece que é o único jeito de me livrar do nó-dulo, que é do bem, mas pode mudar de idéia. E não queremos que ele mude de idéia. De jeito nenhum. Agora, é o seguinte: com uma borboleta pela metade, ficará a vida menos colorida? Espero que não, porque eu sou fã do Klimt. Vocês já notaram, né?
terça-feira, julho 31
Pessoas
Terrenos tão movediços e tão intrigantes, as pessoas envolvem. As pessoas encantam e parece que algumas apresentam uma habilidade especial: com uma rapidez espantosa tomam parte de nós, entram na gente, nos parasitam, nos abraçam com tentáculos inúmeros e não sei ao certo se nos atam, aprisionam ou se nos domesticam. Não sei se fazer parte desse novelo humano é bom ou ruim. Não sei se gosto desse jeito das pessoas. A sociedade é uma trama de um novelo grandão; nela, o movimento de uns passa a ser, forçosamente, o movimento de outros. Agora eu quero claricianamente parar pra pensar nisso tudo, quero olhar o novelo daqui desse ângulo construído de linguagem. Vou usar lupaslavras e olhar bem de perto e me protegerei por algum tempo com meu pensescudo. Será que ser livre seria mesmo só uma miragem? Quanto mais olho em mim mais vejo fios do novelo; porque, vejam: é que olhar o novelo é me olhar também. Sou detetive das tuas pegadas e as tuas pegadas em certo ponto do caminho já são as minhas. Monstro-chiclete. Se eu parar de pensar um instante, gruda tudo. É preciso mascar. É preciso desfiar, mesmo que ao desfiar outro manto se teça. Não se pode deixar de ser. Acho que é isso que as pessoas ensinam.quarta-feira, julho 25
Espera

sábado, julho 7
Ai, que saudade do meu analista. Tô há um mês numa gripe de dar pena e não apareço mais nas sessões por conta disso. São Pedro tem pena dos gaúchos que esse tempo bipolar nos está castigando. Um divã, seu garçom, por favor, me traga depressa. Vá perguntar ao seu freguês do lado, qual foi o resultado do futebol. Seu garçom...
quarta-feira, junho 27
Eu acredito
Esse vídeo aí faz parte de uma série que encontrei no YouTube com pequenos trechos de aulas e entrevistas do Paulo Leminski, destilando sua paixão pela poesia e pelo que ele chamou de "grande barato" da linguagem. O poeta diz que todo mundo é poeta aos 17 anos, que o que é raro é continuar acreditando na poesia depois dessa fase. Taí, eu acredito. Me acho ruim pra caramba escrevendo poesia, mas acredito na poesia que está nas coisas, insisto em deixar isso falar por mim. Acho que um poeta é um fixado, um insistente, um reminiscente, um remanescente, uma semente.
