terça-feira, fevereiro 10


Não te deixes destruir...
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.


Cora Coralina (Outubro, 1981)

sábado, janeiro 31

Feliz Aniversário




Quando eu te conheci

Uma faísca de mim deve ter te abraçado

Recém-chegada de uma infinidade de dias conversados

de repente te encontrou ali.

Feliz Aniversário!


Aquele que eu nunca vi

Que eu nunca senti

Que eu nunca beijei

Uma metaforse de nuncas

Que viraram surrealidade.



Pós-escrito: Como Hilda Hilst escreveu em "Amavisse", anoto nesse cantinho que "em algum tempo vivi a eternidade dessas rimas". E com ela, em uníssono - afinal, sempre gostei de cantar em grupo-, repito Bataille: "Sinto-me livre para fracassar".

sexta-feira, dezembro 5

As faces da verdade


Dizia a um amigo, hoje mesmo, que conhecemos as pessoas como elas realmente são - na conversa em questão, nos referíamos à pessoa amada - em duas situações somente.


Na primeira, que é aquela em que temos manifestada nossa dose mais significativa de sorte, ocorre que depois de deixarmos os desejos ardentes da cara-metade, e os nossos também, é claro, teoricamente saciados, ela nos faz o louvável favor de nos deixar a ver navios antes que a nossa âncora já não a deixe mais partir, o que nos livra a ambos da armadilha terrível da alteridade. Nesse caso, perdemos menos tempo da nossa vida e gastamos pouca ou nenhuma lágrima, além de podermos colocar um número menor de objetos alheios à disposição da lixeira mais próxima.


Na situação menos favorecida, acontece que vivemos uma longa estrada de espinhos com nossa cara-metade, após um debochado e breve período de suposto idílio que julgávamos ter compartilhado, e finalmente depois de termos queimado a maioria de nossas fichas nesse jogo, ela vira a mesa e conhecemos seu lado sombrio. É a outra situação em que realmente se conhece a verdadeira face das pessoas.


Afora essas situações acredito que estamos no limbo do que poderíamos chamar de amizade, o que não chega a ser um terreno muito seguro, mas pode nos deixar uma vida toda ignorantes das verdades que nos tornariam de uma vez por todas socialmente incompatíveis, acompanhados, cada um, sem exceção, somente por uma medalha de distinção.

P.S.: Será que não estou sendo um pouco utópica ou uma quase otimista naïve nesse final de texto? É que como não se pode olhar o outro de perto também é um pouco difícil de a gente se ver, não é mesmo?

quinta-feira, novembro 20

Histórias de uma Gata Borgiana



Estive lendo Borges em algumas de suas jornadas pelas curvas do tempo, penetrando em seu labiríntico mundo feito de memórias e misturas imaginárias com linhas de tempo que não se cruzam. Quer dizer, não se cruzam até que algo fantástico acontece, como em "O Aleph", em que pela força da narrativa podem estar todas elas, épocas distintas, acompanhadas de espaços e lugares que deixaram de existir ou que são simplesmente fruto de nossas fantasias; tudo isso ao mesmo tempo contido em um pequeno grão de areia.

Todos aqueles que já sentiram saudades do que não viveram sabem do que estou falando aqui. O passado é um sujeito esquisitão que nos visita de vez em quando e pode ter inúmeras edições, com releituras, plágios e fanfarronices. O meu passado imaginado pode não ser tão rico em erudição como o de Borges, porém tem cá seus encantos: pude viver aqueles dias em que fui gata, tinha sete vidas pra gastar e dormia o máximo que podia em cada uma delas. Nestas vidas, pra minha sorte, os gatos eram diretos e sabiam o que queriam, além disso eu sempre podia sair correndo pelos telhados caso me parecesse mais interessante e ficava a admirar a lua sem pensar em prós e contras, prés e pós-tudo.

Tenho outros muitos passados que se casam com este e se distinguem infinitamente dele também. Como no personagem do conto de Borges, "A outra morte", quando alguém deseja com todas as suas forças superar um passado ou um presente que não lhe fazem justiça, ressurge das cinzas e transforma sua história, confundindo memórias alheias escritas umas sobre as outras como num palimpsesto. Acumula os traços de novos percursos e completa sua missão de superação: no meu caso, poderia chamar essas novas histórias de "As outras vidas".

segunda-feira, setembro 22

Para meu amigo Leo

Eu ia cantar um mantra, um dia
Pra realizar aquela sua fantasia
Você lembra?

Tanta coisa na vida eu deixo assim
Livre das urgências, longe de emergências
Sou uma antítese da pressa
Escuto e sussurro coisas
Faço dias dos fragmentos de tempo
Como quem monta um quebra-cabeça

Eu vivo num jogo de paciência

Mas fala comigo a tua letra avessa
Meu ritmo cardíaco errante
Entende o compasso do teu verbo
E essa tua percussão tão precisa

Eu falo quase na quietude da simplicidade
Sobre a tua complexidade berrante
Espero que a conversa sempre avance

De um lado, que a tua pressa grite
Poderosa, adjetiva, exagerada
Vivamente escrita

Enquanto por aqui
Vou escrevendo
Como quem canta
O Mantra.

sábado, setembro 20

Sartreana


"É de manhã, vem o sol

Mas os pingos da chuva que ontem caiu

Ainda estão a brilhar

Ainda estão a dançar

Ao vento alegre que me traz esta canção"


Dolores Duran



De manhã tenho sentido um movimento esquisito no meu ventre; antes de acordar de verdade, meio sonolenta, sinto um friozinho, um calafrio, uma coisa difícil de definir. Faz alguns dias que sinto isto, é algo que me acomete quando estou prestes a começar um novo dia. Queria cantar a "Estrada do Sol" num dueto impossível com a Dolores Duran e sair por aí pra ver o sol.


Eu quero um montão de coisas impossíveis, eu sei, mas eu sou uma sonhadora incurável. Esse dueto seria um início de dia bacana, bem melhor do que esse friozinho na barriga. Pra falar a verdade eu sinto quase um enjôo. Uma náusea. Que merda ser tão sartreana logo de manhã!

terça-feira, setembro 9

Mudanças e andanças interiores




Olhar pra trás e não virar pó. Nem uma estátua de sal. Não é fácil. O passado é feiticeiro, prende e paralisa momentos que eram tão vivos e fossiliza tudo. É tão rápido que na vida um acontecimento assim nos faz virar nada, se não tivermos algum cuidado. Basta uma virada, um olhar breve e não se vê jamais o mesmo de novo. E lá está diante de nós: um deserto, um vazio, um vento seco que sopra ríspido em tom de mágoa ou em outros tons diferentes mas que vão todos arranhando a gente. Eu sabia que não podia olhar pra trás, que tinha que seguir em frente sem pensar, mas eu não pude evitar. Foi simplesmente um movimento meu, uma andança que eu precisava fazer nesse deserto. Constatar a paisagem, testar uma amizade, esperar uma generosidade ou uma gentileza, talvez fazer um pedido grande demais. Mas foi uma coisa que não pude evitar. Uma sinceridade que olhou antes de mim, através de mim, apesar de mim e se virou mesmo ciente dos avisos e do pacto tácito. Não quis ser o olhar de uma traidora, nem trazer nem deixar uma sensação de abandono, não quis ser o que foi. Não posso desfazer o olhar que se voltou pra trás e viu. Mas não viremos pó na paisagem desolada, só o que houve é que ficamos distantes. A distância é uma mudança, é uma coisa viva, algo que acontece entre humanidades, solidariedades, amizades. Ela cria um vão que guarda algo de bom. Irrecuperável, mas bom.

“Lembrai-vos da mulher de Ló” (Lc 17.32)

Les Femmes



Que mulher poderia expressar melhor
a condição feminina senão Medéia?


"De todos os que têm alma e pensamento,
nós, mulheres, somos a criatura mais infeliz.
Primeiro, é preciso, com o máximo de bens,
comprar um marido, e tomar o déspota de nossos
corpos. Esse mal é mais doloroso do que o próprio mal.

(.....)

Dizem que vivemos uma vida sem perigos,
em casa, enquanto eles guerreiam com a lança;
e pensam mal, pois preferiria eu três vezes
lutar com o escudo a parir uma única vez."

Há certas coisas que não mudam nunca. O mundo paralelo dos homens não se encontra com o feminino, a diferença é que agora a mulher não compra marido com um dote, geralmente nem quer marido por motivos cada vez mais razoáveis.
Mas ela continua tendo déspotas para lidar com seu corpo, que insistem em pensar mal: acreditam que suas conquistas sejam fruto da besta sedenta que eles desejam encarnar, apesar de sempre depararem-se com impossíveis e impotências, perseveram na busca do objeto de caça a ser exibido como se fosse um troféu.

E dizem que vivemos uma vida sem perigos: vejam que perigo é ser alguém com corpo, alma e pensamento; e ter as três entidades nada divorciadas nem esquizofrênicas. Vejam que perigo!

segunda-feira, setembro 8

Apontamentos sobre a raiva

Retrato de Edward James - René Magritte


"(...) a mais popular das metáforas da cultura ocidental à qual a raiva está atada é aquela de que 'as paixões são bestas dentro de uma pessoa [e] o comportamento de alguém que perdeu o controle é o comportamento de um animal selvagem'". Lakoff apud Santaella 2004: 162



"O que é verdadeiro, na maior parte das vezes, entretanto, é que a raiva é uma caso intersubjetivo".


Acredito que raiva é um passeio emocional. Ela faz seu percurso tendo seu ponto de partida na injúria e no sentimento de injustiça (quem teria começado, afinal o movimento???) e segue até a concretização da retribuição na forma da vingança, que precisa ter equivalência na virulência - aos olhos de quem se vinga - em relação ao ato abjeto que lhe deu início.


A raiva é um espelho terrivelmente cego.





sábado, setembro 6

Excultura



Já dizia o poeta

que não tinha alma pequena:


Há na vida um pouco de tudo,

aquilo que vale a pena

fica quase invisível nessas paisagens

duras e desérticas das longas viagens

que só chegam ao centro do eu mesmo.


Há tesouros que vistos de perto

viram o ouro dos bobos.


Passa a peneira, garimpeiro!!!

Separa o ignorado que pode parecer ser o ignorante

do falso sábio que vem a ser o único que pra si mesmo mente



Como tudo é reversível no jogo da vida!

A marionete começa a acreditar que faz falar o titereiro

O titereiro pensa dominar a marionete


E no espetáculo triste das mentiras

Dançam as dignidades esquecidas

sexta-feira, setembro 5

terça-feira, agosto 26

quarta-feira, agosto 13

Vesti de preto aquelas memórias
Tricotadas de momentos
a enforcar-me
o tempo


Asfixiei respirando fundo
esse ar carregado
de atitudes rarefeitas


Morri onde esperava uma vida
Deixei uma flor na ferida
para murchar no esquecimento
com as tardes mudas
e as noites frias

Lento, o compasso de esperança seguiu
até voltar ao pó

Velo na invisibilidade
esse estranho
irreconhecível
inominável
que não sei quem é

verso, reverso e vice-verso

quem espera cansa
quem hesita perde
quem se despede decide
quem se engana insiste
quem cansa perde
quem decide desiste
quem insiste espera
quem se engana hesita
quem se decide cansa
quem se perde se despede
quem se cansa engana
quem se engana cansa
quem engana

terça-feira, agosto 12

Esquecendo

A paz invadiu o meu coração
De repente, me encheu de paz
Como se o vento de um tufão
Arrancasse meus pés do chão
Onde eu já não me enterro mais

[...]

Eu vim
Vim parar na beira do cais
Onde a estrada chegou ao fim
Onde o fim da tarde é lilás
Onde o mar arrebenta em mim
O lamento de tantos "ais"





quinta-feira, agosto 7

Bartolomeu não vem jantar

Só pra falar de amor uma vez mais...

Hoje escutando o rádio enquanto ia pro trabalho fiquei sabendo deste documentário; pode não ter ido pro Festival de Gramado, mas já tá no festival da vida e é lindo! Vejam só:



Bartolomeu não vem jantar from Tiago Dias on Vimeo.

quarta-feira, julho 30

Perplex(idade)

"O júri", obra de Di Cavalcanti


Olho para todo esse mundo submerso de vontades que não são minhas: universo estranho e exótico no qual eu não sei nem como me mover nem como respirar. Estou aqui sufocando na inexatidão dos meus juízos e das minhas esperanças. Tão enganada, tão perdida e inadequada para o jogo. Eu sonhava com uma humanidade tão distinta dessa que eu vejo agora. Move-se uma peça do tabuleiro e eu penso e penso, mas não entendo. Não sei prever, não sei calcular antes. Eu tenho um peito aberto, feridas expostas, nenhuma armadura, não uso artimanhas. Eu não sei jogar. Pra falar bem sinceramente eu não tenho vontade de jogar assim. Não quero. Tenho que encontrar outra maneira de existir. Esse jogo não é meu.

sexta-feira, julho 25

O Livro do Coração

Um dia comprei um livro que tratava do tema do imaginário que se fez em torno da figura ou imagem do coração como representação dos sentimentos; na época tinha tão pouco conhecimento do que se tratava o amor, por alguma razão nunca li o livro. Hoje me lembrei dele, lá na estante, guardado para depois.
Interessante como tenho livros que ficam assim, em stand by, mas que eu compro porque sei de algum jeito, que não sei explicar, que precisarei dele algum dia. Pode ser um fenômeno de premonição ou uma relação de atração que misteriosamente se processa nesses momentos, nossos olhos passeiam por entre as fileiras de livros e se põem em contato com um entre tantos, aquele que aparece de repente em destaque naquela multidão. Quando vamos à livraria temos uma atitude de caçador, damos uma busca como um paquera quando está em um bar: a busca por um olhar, por um tom de voz, por fragmentos de algo que seja especial e que fale para nós, em um murmúrio absolutamente particular.
Assisti nesta tarde ao filme "Banquete do Amor" ou "The feast of love", na trama há um personagem que é dono de uma cafeteria e que é observado por um cliente-conselheiro-amigo. O último mostra-se astuto no início do filme em detrimento da cegueira do coração apaixonado do primeiro. Esses lugares se invertem, mais ao final do filme. Gosto de pensar que na vida todos ocupamos lugares e papéis que são momentâneos e a roda-gigante dos dias vai virando quase sem sentirmos e nos faz experimentar o doce e o amargo, farturas e penúrias, cada coisa a seu tempo. Esse é um ponto de vista que está presente nesse filme, mas o mais interessante é a aprendizagem do amor, as lições do"coração" que vão se desenrolando ao longo da história.
Identifiquei-me com o personagem esse, o dono da cafeteria, porque ele ama sem ser correspondido, ele ama sem pedir nada em troca, e entra e sai de relacionamentos que sempre deixam-no nessa mesma posição: feito cachorrinho sem dono. Claro, não vou contar o filme, não se preocupem, só queria dizer que me vi ali nesse personagem por inúmeras experiências diferentes que se mostraram estranhamente iguais. Acho que como o Bradley, o tal personagem, também salto de olhos fechados, no amor é preciso abrir os olhos para saltar. Não quero viver mergulhada em abismos. Provavelmente meu coração está em stand by junto com aquele livro lá da prateleira. O fato é que continuo não tendo lido o tal livro ainda. Eu protelo tantas coisas na vida, mais uma ou menos uma não faz muita diferença, ou será que faz?

Alfonsina Storni




FRENTE AL MAR

Oh mar, enorme mar, corazón fiero
De ritmo desigual, corazón malo,
Yo soy más blanda que ese pobre palo
Que se pudre en tus ondas prisionero.

Oh mar, dame tu cólera tremenda,
Yo me pasé la vida perdonando,
Porque entendía, mar, yo me fui dando:
«Piedad, piedad para el que más ofenda».

Vulgaridad, vulgaridad me acosa.
Ah, me han comprado la ciudad y el hombre.
Hazme tener tu cólera sin nombre:
Ya me fatiga esta misión de rosa.

¿Ves al vulgar? Ese vulgar me apena,
Me falta el aire y donde falta quedo,
Quisiera no entender, pero no puedo:
Es la vulgaridad que me envenena.

Me empobrecí porque entender abruma,
Me empobrecí porque entender sofoca,
¡Bendecida la fuerza de la roca!
Yo tengo el corazón como la espuma.

Mar, yo soñaba ser como tú eres,
Allá en las tardes que la vida mía
Bajo las horas cálidas se abría...
Ah, yo soñaba ser como tú eres.

Mírame aquí, pequeña, miserable,
Todo dolor me vence, todo sueño;
Mar, dame, dame el inefable empeño
De tornarme soberbia, inalcanzable.

Dame tu sal, tu yodo, tu fiereza.
¡Aire de mar!... ¡Oh, tempestad! ¡Oh enojo!
Desdichada de mí, soy un abrojo,
Y muero, mar, sucumbo en mi pobreza.

Y el alma mía es como el mar, es eso,
Ah, la ciudad la pudre y la equivoca;
Pequeña vida que dolor provoca,
¡Que pueda libertarme de su peso!

Vuele mi empeño, mi esperanza vuele...
La vida mía debió ser horrible,
Debió ser una arteria incontenible
Y apenas es cicatriz que siempre duele.