sexta-feira, dezembro 5

As faces da verdade


Dizia a um amigo, hoje mesmo, que conhecemos as pessoas como elas realmente são - na conversa em questão, nos referíamos à pessoa amada - em duas situações somente.


Na primeira, que é aquela em que temos manifestada nossa dose mais significativa de sorte, ocorre que depois de deixarmos os desejos ardentes da cara-metade, e os nossos também, é claro, teoricamente saciados, ela nos faz o louvável favor de nos deixar a ver navios antes que a nossa âncora já não a deixe mais partir, o que nos livra a ambos da armadilha terrível da alteridade. Nesse caso, perdemos menos tempo da nossa vida e gastamos pouca ou nenhuma lágrima, além de podermos colocar um número menor de objetos alheios à disposição da lixeira mais próxima.


Na situação menos favorecida, acontece que vivemos uma longa estrada de espinhos com nossa cara-metade, após um debochado e breve período de suposto idílio que julgávamos ter compartilhado, e finalmente depois de termos queimado a maioria de nossas fichas nesse jogo, ela vira a mesa e conhecemos seu lado sombrio. É a outra situação em que realmente se conhece a verdadeira face das pessoas.


Afora essas situações acredito que estamos no limbo do que poderíamos chamar de amizade, o que não chega a ser um terreno muito seguro, mas pode nos deixar uma vida toda ignorantes das verdades que nos tornariam de uma vez por todas socialmente incompatíveis, acompanhados, cada um, sem exceção, somente por uma medalha de distinção.

P.S.: Será que não estou sendo um pouco utópica ou uma quase otimista naïve nesse final de texto? É que como não se pode olhar o outro de perto também é um pouco difícil de a gente se ver, não é mesmo?

5 comentários:

André Lima disse...

" e ter nas mãos o prêmio inútil de ser o primeiro..." é alguma coisa assim que a Clarice fala num conto. Sei lá, lembrei só dessa frase por causa do último parágrafo.

Belo blog, Dri! Belos textos. Viro leitor desde agora. E obrigado pelo sábio conselho lá no seu comentário. Apareça sempre, querida soprano. Abração!

André Lima disse...

Ah, tem resposta lá para ti.

Renato Tardivo disse...

o outro do outro em mim. bastante incompatível. e social também, rs.

ps.: uma boa parte. quando virá???

renata penna disse...

hummm
me vi meio naif, meio romantiquinha ao pensar nisso. ainda acredito que conhecemos o outro. é raro, acontece pouquíssimo, mas acontece. uma entrega inteira, bela e incontestável.
será?

Dri disse...

Amém! :)