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Estive lendo Borges em algumas de suas jornadas pelas curvas do tempo, penetrando em seu labiríntico mundo feito de memórias e misturas imaginárias com linhas de tempo que não se cruzam. Quer dizer, não se cruzam até que algo fantástico acontece, como em "O Aleph", em que pela força da narrativa podem estar todas elas, épocas distintas, acompanhadas de espaços e lugares que deixaram de existir ou que são simplesmente fruto de nossas fantasias; tudo isso ao mesmo tempo contido em um pequeno grão de areia.
Todos aqueles que já sentiram saudades do que não viveram sabem do que estou falando aqui. O passado é um sujeito esquisitão que nos visita de vez em quando e pode ter inúmeras edições, com releituras, plágios e fanfarronices. O meu passado imaginado pode não ser tão rico em erudição como o de Borges, porém tem cá seus encantos: pude viver aqueles dias em que fui gata, tinha sete vidas pra gastar e dormia o máximo que podia em cada uma delas. Nestas vidas, pra minha sorte, os gatos eram diretos e sabiam o que queriam, além disso eu sempre podia sair correndo pelos telhados caso me parecesse mais interessante e ficava a admirar a lua sem pensar em prós e contras, prés e pós-tudo.
Tenho outros muitos passados que se casam com este e se distinguem infinitamente dele também. Como no personagem do conto de Borges, "A outra morte", quando alguém deseja com todas as suas forças superar um passado ou um presente que não lhe fazem justiça, ressurge das cinzas e transforma sua história, confundindo memórias alheias escritas umas sobre as outras como num palimpsesto. Acumula os traços de novos percursos e completa sua missão de superação: no meu caso, poderia chamar essas novas histórias de "As outras vidas".

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