sábado, abril 26

Desnuda



Falo comigo mesma
confio minha nudez
às paredes quietas do quarto
desfaço-me de cenários e figurinos
mas estou tão segura
lá fora, ficaram os roteiros da previsibilidade
sinto o calor do que se passa dentro de mim
aninhada no aconchego desse meu ar morno
as mãos pousam leves
aterrissando sobre meu colo de estrelas
e explodem no ventre das minhas verdades
eu sou tão eu mesma
já sei
poderia dividir-me em milhões de fragmentos e ainda seria eu
supernovas nascidas de mim
brilhariam fulminantes
deixando o rastro secular
do invisível das sensações
perdidas no espaço do segredo

quinta-feira, abril 10

"Eu vejo flores em você"


A vida tem umas coincidências que, às vezes, dão aquela forte impressão na gente de que não podem ser mero fruto do acaso. Parece existir uma força de atração entre as coisas e as pessoas, entre idéias e sensações, momentos e canções. Como naquela canção do Milton Nascimento: "Eu só sei que há momento que se casa com canção, de fazer tal casamento vive a minha profissão".

Tem muita música que vira trilha sonora de um romance, de um dia especial que se viveu, de um momento que - mesmo não tendo sido fotografado ou mesmo não sendo mais ligado ao nosso presente - fica lá no coração registrado. Sempre que ouvir a tal música, pimba. Você lembra de tudo como se tivesse sido ontem. Tem canções que parecem que lêem o pensamento da gente. Como é que pode o Renato Russo ter entrado na minha cabeça e adivinhado que eu ia pensar isso um dia? Eu canto em uníssono com ele: "Você culpa seus pais por tudo e isso é absurdo. São crianças como você, o que você vai ser quando você crescer." Como pode ele ter adivinhado que, por uma série de acontecimentos na minha vida, eu perceberia que "é preciso amar como se não houvesse amanhã, porque na verdade não há"? O presente é tudo que temos, mas uma canção do passado torna tudo tão presente que chega a ser estonteante.

Ver a realidade de um jeito que encontra ressonância no olhar de tanta gente é uma verdadeira arte. Eu sou professora e, de certo modo, também tento fazer isso, para ensinar e aprender é preciso confundir as fronteiras entre o eu e o você. Como encontrar palavras que falem para cada alma e cada coração em especial? Como fazer com que cada "você" empregado no texto não seja um mero pronome, um espaço vazio que pode ser ocupado por qualquer leitor em potencial? Ao contrário, o que se quer é justamente tornar esse "você" um fogo de artifício, uma explosão reveladora que resulta na impressão inabalável de que o que se está dizendo não é pra um alguém abstrato e anônimo, é pra mim, eu mesmo que estou aqui lendo agora, em carne e osso! Claro que, ao mesmo tempo, sempre sobra algo no encontro da mensagem de uma música (ou de um texto, uma obra estética). Essa sobra gera uma espécie de distanciamento que, por vezes, é um conforto que chega depois da catarse do encontro com a dor e o amor ficcional, chega depois da descoberta de que o sentido do outro é também um pouco meu. Mas não todo. Sobra um espaço para eu respirar, para descolar, algo que fica por dizer.

Eu sou eu, você é você. Mas nessa lei da atração que vem da arte, as fronteiras se esfumam, se diluem e eu "quero ver flores em você", como um sujeito apaixonado, confundo-me com o outro. Ler e ouvir música são atos de paixão. São atos de ilusão, também, mas desses que fazem parte de um presente que a gente quer lembrar depois. E se eu fosse fazer uma prece, assim como que para me contagiar desse poder de traduzir as pessoas em palavras ao vento, palavras impressas, dispersas, imersas, iria usar mais uma inspiração musical, bem ao sabor da atualidade de um som que embalou muitos momentos memoráveis da minha geração e diria assim: "Quero te dizer a palavra certa, como o novo dia que vai nascer em um segundo"... Mas eu sei que a palavra é sempre incerta e titubeante. O jeito é encarar tudo isso como um eterno ensaio de diálogo com as outras pessoas. Muitas músicas e muitas palavras virão, daqui pra sempre.

quarta-feira, março 19

Começo


Danae - Gustav Klimt


Volto a caminhar, olhando as ruas com uma atenção pensante, turbilhante, pulsante. Estou emagrecendo. Me sinto renovada pelo acelerado da vida, por parecer estar no ritmo das coisas; o trem passa, eu passo, tudo passa. Tic-Tac. Que bom, penso no alívio de saber que não temos a eternidade, com o tempo contado tudo já parece tão complicado. Imagine se nos sobrasse tempo.


Meu coração está batendo palavras que eu vou escrevendo aqui dentro, nesse meu livro incluso. Pois é, depois de tanto tempo de análise eu ainda tenho meus livros inclusos. Os sisos já resolvi, com broca, com tudo que foi necessário, foram arrancados, com dor. Nasceram mais ou menos como eu: pela força do fórceps. Mas os livros ainda não. Penso se tem alguém que queira ler. Será necessário ser lida, não quero me sentir inútil. Talvez eu seja uma leitora egoísta de mim mesma, não aposto na idéia de compartilhar. Só que eu tenho uma sede, a boca seca de tanto não-dizer, porque escrever pra dentro é um tipo de aborto. Choro o sentido soluçante das canções que falam por mim. O mundo está aí falando por mim, não quero mais deixar por isso mesmo.

Meu coração dói, poemas correm pelas veias, crônicas e conversas imaginadas circulam pelo corpo inteiro, a pele transpira um conto com personagens com os quais eu não conversei. Sou "muito fria", me dizem, sou fechada; eu não deixo nada sair nem entrar. Eu não falo com eles, os personagens, mas eles me assombram, ficam como fetos movendo-se, chutando, apertando, querendo vida.

Preciso confessar essa inibição, essa paralisia, esse meu pecado, meu deus: quem sabe rezo um pai-nosso, duas ave-marias. Quem sabe ainda conhecerei a fé.
Eu quero dizer que eu não consigo me dedicar a esse ato solitário e masturbante de usar a linguagem para o meu prazer. Meu prazer de dizer parece proibido. Tão meu e bem escondido, re-pri-mi-do. Vou soltar essa voz escrita em mim, porque já tenho medo de ficar sem voz. Tenho medo de ficar num beco sem saída. Não, não, eu não sou egoísta de verdade, antes eu disse isso como uma analisanda que quer dar um nó no analista. Tá bom, o nó é meu; eu sei, eu sei. Dedico-me a tudo e a todos pra não me entregar pra mim.


Mas eu avanço agora, estou a um passo, com uma determinação esquisita, assumo uma cadência cada vez mais rápida e a trilha vai sendo tão absolutamente minha. À minha volta vejo tudo como se fosse pela primeira vez. Todos os pilares dos trilhos do Trensurb, sob o qual caminho agora, têm escritos, têm autores, grafiteiros, anônimos, mestres da ousadia de um registro que se faz apesar de tudo e de todos. Quem precisa dizer, diz e pronto. É assim. Preciso aprender isso, não começa se eu não começar.


Num dos pilares encontrei algo que falou comigo (o mundo fala sempre algo por você se você não disser por si mesmo): "Às vezes quando erramos aprendemos coisas que jamais teríamos aprendido se tudo tivesse dado certo".


Eu quero dizer algo que faça - ou que faço - sentido pra mais alguém além de mim. Tá dando tanta coisa errada, que cresce em mim uma fé de que o que preciso aprender de tudo isso começa aqui. Na minha escriturbação.
Texto publicado no Jornal "Pois é", nº 15. Um novo começo.

quarta-feira, março 12

Sobre a queda das máscaras ou em defesa de um personagem secundário



Não vamos nos fazer de bobos: todos sabemos que usamos máscaras, vestimos as facetas que nos convêm nas ocasiões em que elas se encaixam. Tudo bem, nada mais humano, não é mesmo? Sermos mutantes, flexíveis, adaptados ao ambiente. A lei da seleção natural reforça a idéia de que o mais apto a sobreviver é justamente aquele que melhor consegue se adaptar, a biologia e a arqueologia nos ensinam a força dessa lógica. Mas ainda que me confesse uma fraca, até poderia dizer uma otária, para certos mestres da arte da adaptabilidade, eu sempre tenho comigo - cá entre nós, vou dizer bem baixinho só para meus amigos ouvirem - um grilo-falante.

Talvez vocês que me lêem agora, também tenham seu grilo-falante, juro que eu gostaria que me confirmassem isto, por favor: que vocês também são acompanhados, como eu, por aquela figurinha conhecida como um repressor que surge do nada no melhor da festa, justamente no momento crítico. Aquele que se ergue diante das tentações e dos oportunismos, que aconselha em nome da ética, ou mesmo até, do amor ao próximo (será que ainda podemos falar dele sem sermos utópicos ou meros papagaios cujos discursos e catequismos não coincidem com as ações cotidianas???).

O grilinho, para aqueles que o conhecem, aparece antes de nosso mergulho no ato para o qual nosso ser nos impeliria com toda sua sede, o mesmo ato que mancharia nossa história e destruiria alguma coisa boa dentro de nós, tornando-nos outros para sempre. Talvez ele até se contraponha à arte da adaptação de que falei antes. É possível que aqueles que não o conheçam sejam mais livres, tenham mais prazeres, permitam-se mais, ousem mais, arrisquem mais, calculem mais friamente uma vida voltada pra si mesmos e se concentrem na luta em causa própria com seu exército de um ego só.

Talvez o nosso amigo cri-cri não seja um super-herói, afinal, em nenhuma história que se possa contar. O grilo-falante é muitas vezes um algoz do nosso desejo e das nossas ilusões, e o que é pior, na visão dos empreendedores e ambiciosos: ele é apenas um coadjuvante. Mas os pinóquios que me perdoem - apesar da lógica do capitalismo selvagem, do amor livre e do descompromisso do ninguém é de ninguém, apesar dos contos de fadas e da moral da história estarem virando coisas do tempo da minha avó -, ouvir meu grilo-falante me faz buscar ser todos os dias uma pessoa melhor. E meu nariz não cresce quando eu falo com vocês agora, enfim, ele não cresce quando eu falo. Vai ver já deixei de viver uma vida de brinquedo ou de marionete e virei gente! Mesmo que seja uma espécie em extinção.

sexta-feira, dezembro 14

And so this is Christmas



Incrível como o tempo voa, a gente costuma dizer por aí, "o tempo passa", olhei minhas fotografias do Natal do ano passado faz pouco e me assustei, já é Natal de novo! Tempo dos tais balanços de vida, acho que todo mundo faz isso, nossa velha e boa neurose de sofrer pelo que não tivemos tempo de fazer e também pelo tempo que desperdiçamos sem fazer nada, com os prazeres e as preguiças. Meus cabelos brancos aumentaram muito, segundo meu cabeleireiro e meu namorado - são os únicos que enxergam as raízes branquinhas que vão se misturando, invadindo mesmo, por entre os castanhos de antigamente. O envelhecimento é uma coisa muito esquisita, ontem eu estava jantando com amigos e entramos nesse tema do estranhamento.

A gente se estranha diante de certas marcas do tempo, como se aparecessem assim, de repente, em nós. Um amigo dizia que "não pode" deixar a barba crescer, porque já está toda branca. Eu ri e lhe contei que meu cabeleireiro falou que "estavam aumentando horrorosamente os branquinhos na raiz" - dia destes, antes de colocar minha tintura - e eu gritei logo pra ele, nada dissso! Não me conta, não me conta! Prefiro a ignorância... deixa meus ruivos em paz, pra todos os efeitos.

Na verdade, disse no jantar de ontem e digo de novo aqui, eu ainda sou uma adolescente. Como na música aquela: "quem sabe ainda sou uma garotinha...". Eu ainda sou fã do Legião Urbana e lembro como se tivesse sido ontem do show deles que eu assisti quando tinha 16, num frio de rachar, fui pra ver o Renato Russo, aquela voz sem limites, aquele jeito revoltado de dançar, uma certa raiva do mundo que eu entendia tão bem naquela época. E entendo. Sempre.

Eu não deixei de ser a adolescente que usava pó compacto pra disfarçar as espinhas do rosto, que gostava de cantar e podia passar horas só fazendo isto sem sentir o tempo passar. Ainda sou aquela garota que ri meio atrasada das piadas que me contam, a "faísca atrasada", a mesma que adorava dançar com um boa dose de exotismo (tentando imitar o Renato Russo) e podia seguir dançando por noites inteiras, quase até o amanhecer, sem ficar semi-entrevada no dia seguinte.

Como pode ser que eu seja ao mesmo tempo essa adolescente por dentro, com cabelos brancos e dor no ciático por fora? São incongruências da vida. A vida é irônica com a gente, uma verdadeira cínica, cheia de sombras na parede da caverna, a gente fica lá, meio tonto, olhando de um ângulo pra outro a tal realidade do mundo e da gente. Enquanto passatempo.

quarta-feira, outubro 24

A Arte e os Olhares Digitais


Mudando de saco pra mala, estive visitando a Bienal do Mercosul, que não teve tantos encantos quanto a anterior, mas ainda assim se encontram instalações e obras que garantem alguma diversão com uma ou outra reflexão pra levar pra casa. Uma dessas reflexões só me ocorreu depois de uma sondagem nas fotos que tirei por lá, sobretudo essa daí, que me fez pensar no modo como nos relacionamos com a arte de hoje.
Logo que chegamos ao pier do Cais do Porto, onde está ocorrendo parte das exposições, era um tal de gente clicando aqui, clicando ali, todo mundo de celular e câmeras na mão olhando tudo por trás das lentes das máquinas digitais. Eu confesso que desde o início fiquei na dúvida se fotografava as obras ou as pessoas frente a elas. Simplesmente me encanta observar como as pessoas se comportam e desfrutam das obras de arte, principalmente quando se tem a oportunidade de fotografar como fazemos no nosso dia-a-dia, já que onde vamos temos sempre o verdadeiro vício de querer registrar os instantes, congelá-los e acumulá-los nos nossos computadores. Cada vez mais o olhar digital vai se grudando e compondo nossa aparelhagem visual. Passa a ser um organismo tão importante quanto os nossos primitivos olhos.
Até aí, nada de novo no front, porque isso, como dizia uma professora minha, "até o cachorro da esquina já sabe". Intrigante, nisso tudo, sob o meu ponto de vista, é que esse olhar digitalizado e compulsivo do mundo participa da recepção da obra de arte e origina uma relação criativa que compõe a obra, coisa que desde Umberto Eco ficou notória, quando ele tratou do tema da arte como obra aberta a essas atividades de "leitura".
Enfim, toda essa enrolação é pra contar que antes de ir embora, e já meio cansada, fiz a tal invenção de brincar com as várias dimensões dos cordões de nylon dessa obra que se pode ver aí na foto, e enquanto ainda me divertia criando posições pra ver como sairiam nas fotos, outras pessoas chegavam e começavam a fazer o mesmo. Essa instantânea recriação da obra é, pra mim, o que pode haver de mais bacana e revolucionário na arte: que ela seja imprevisível.

terça-feira, agosto 28

Sobre borboletas, nós e metades


Estou com uma coisa me apertando o pescoço. Sabe aquele nó na garganta? Pois é, eu tenho isso. Mas não é exatamente uma expressão idiomática, um sentido figurado, uma metáfora. Como boa histérica, claro que o meu nó é literal, ou melhor: corporal. É um nó-dulo. Um nó-dulo da tireóide. Aliás, ele não está sozinho. Eles já são dois; logo de saída o nó já trouxe companhia. Um nó-dulo acompanhado. Eu não esperava encontrá-los, nem sentia nadica de diferente, foi bem por acaso que acabei fazendo um exame por causa das tais gripes que me rondavam e vim a saber que eles estavam lá, crescendo, apertando a garganta devagarinho. Enquanto fazia outros exames pra saber se eles eram nó-dulos do bem ou do mal, passaram-se dias em que li um zilhão de coisas sobre estes nós. Pessoas que ficam com a metade da tireóide e se livram dos nós, pessoas que aprendem a viver sem a tireóide e pessoas que tem nós do mal e que precisam ser controlados mesmo depois de serem retirados. Tanta coisa sobre nós. Tanto de nós que eu li, revi e lembrei. Tantos nós em mim. Como foram parar todos esses nós aqui dentro de mim? Descobri, nas minhas leituras insones, que a tireóide é simbolizada por uma borboleta, que é o bichinho que lembra a sua forma: ela abraça a nossa traquéia com suas duas asas. Talvez eu tenha que ficar sem uma metade da minha borboleta. Parece que é o único jeito de me livrar do nó-dulo, que é do bem, mas pode mudar de idéia. E não queremos que ele mude de idéia. De jeito nenhum. Agora, é o seguinte: com uma borboleta pela metade, ficará a vida menos colorida? Espero que não, porque eu sou fã do Klimt. Vocês já notaram, né?

terça-feira, julho 31

Pessoas

Terrenos tão movediços e tão intrigantes, as pessoas envolvem. As pessoas encantam e parece que algumas apresentam uma habilidade especial: com uma rapidez espantosa tomam parte de nós, entram na gente, nos parasitam, nos abraçam com tentáculos inúmeros e não sei ao certo se nos atam, aprisionam ou se nos domesticam. Não sei se fazer parte desse novelo humano é bom ou ruim. Não sei se gosto desse jeito das pessoas. A sociedade é uma trama de um novelo grandão; nela, o movimento de uns passa a ser, forçosamente, o movimento de outros. Agora eu quero claricianamente parar pra pensar nisso tudo, quero olhar o novelo daqui desse ângulo construído de linguagem. Vou usar lupaslavras e olhar bem de perto e me protegerei por algum tempo com meu pensescudo. Será que ser livre seria mesmo só uma miragem? Quanto mais olho em mim mais vejo fios do novelo; porque, vejam: é que olhar o novelo é me olhar também. Sou detetive das tuas pegadas e as tuas pegadas em certo ponto do caminho já são as minhas. Monstro-chiclete. Se eu parar de pensar um instante, gruda tudo. É preciso mascar. É preciso desfiar, mesmo que ao desfiar outro manto se teça. Não se pode deixar de ser. Acho que é isso que as pessoas ensinam.

quarta-feira, julho 25

Espera


Estes últimos quinze dias foram uma longa espera, que não é da mesma natureza dessa espera retratada por Di Cavalcanti, sala de espera com um ar calmo, lânguido e quente, tão diferente do frio que morou na minha espera: um frio na espinha, quase interminável. Esperar nunca foi o meu forte, eu que sempre quero ter controle de tudo na minha vida e acabo - como todos aqueles que têm essa ambição - sempre dando com os "burros n'água" e descobrindo que a gente não pode controlar a vida, essa indomável. Esperar é ter tempo demais para imaginar. É ter tempo sobrando pra sofrer. É não ter tempo pra agir, não ter mais tempo. E ter tempo demais pra saber. Esperar com o pescoço literalmente à prêmio. Mas enfim, a minha espera teve um final "quase feliz" e parece que a minha vida não vai mudar tanto assim, afinal. Mas está sendo um susto.

sábado, julho 7

Ai, que saudade do meu analista. Tô há um mês numa gripe de dar pena e não apareço mais nas sessões por conta disso. São Pedro tem pena dos gaúchos que esse tempo bipolar nos está castigando.

Um divã, seu garçom, por favor, me traga depressa. Vá perguntar ao seu freguês do lado, qual foi o resultado do futebol. Seu garçom...

quarta-feira, junho 27

Eu acredito




Esse vídeo aí faz parte de uma série que encontrei no YouTube com pequenos trechos de aulas e entrevistas do Paulo Leminski, destilando sua paixão pela poesia e pelo que ele chamou de "grande barato" da linguagem. O poeta diz que todo mundo é poeta aos 17 anos, que o que é raro é continuar acreditando na poesia depois dessa fase. Taí, eu acredito. Me acho ruim pra caramba escrevendo poesia, mas acredito na poesia que está nas coisas, insisto em deixar isso falar por mim. Acho que um poeta é um fixado, um insistente, um reminiscente, um remanescente, uma semente.

domingo, junho 24

terça-feira, junho 12

Love - Gustave Klimt


Horas rubras (Florbela Espanca)

Horas profundas,lentas e caladas
Feitas de beijos sensuais e ardentes,
De noites de volúpia, noites quentes
Onde há risos de virgens desmaiadas…

Ouço as olaias rindo desgrenhadas…
Tombam astros em fogo, astros dementes.
E do luar os beijos languescentes
São pedaços de prata p’las estradas…

Os meus lábios são brancos como lagos…
Os meus braços são leves como afagos,
Vestiu-os o luar de sedas puras…
Sou chama e neve branca misteriosa…

E sou talvez, na noite voluptuosa,
Ó meu Poeta, o beijo que procuras!

quinta-feira, junho 7

Les Valseurs - Camile Claudel



Baila orquestrada minha pele com a tua
sou uma brevidade ou uma semibreve
não sei se me reduzo ou se me alastro
Gravito
em torno do teu olhar
E tudo gira em nós
Sistema solar antropomórfico
Beijos satélites
Música no espaço acoplado
Meu silêncio e teu barulho
Tua pausa e meu compasso
Dó, ré, mi, faz
Sol, lá, sim

quinta-feira, maio 31

O Gato e a Gata


Miauuuu... disse uma gata realizada.

segunda-feira, maio 7

Sou um deserto que monologa

Obra da querida amiga Luiza Caetano: http://www.luizacaetano.com
"Sou um deserto que monologa",.
Viollet Leduc

Violette Leduc não quer agradar. Não agrada e até assusta. Os títulos de seus livros — L' Asphyxie (A Asfixia), L'Affamée, (A Faminta), Ravages (Destroços) — não são divertidos. Ao folheá-los, entrevemos um mundo pleno de ruído e raiva, onde o amor muitas vezes traz o nome de ódio, onde a paixão de viver se expande em gritos de desespero. Um mundo devastado pela solidão e que de longe parece árido. Não o é, porém. "Sou um deserto que monologa", me escreveu um dia Violette Leduc. Nos desertos encontrei belezas incontáveis. Quem quer que nos fale do fundo de sua solidão fala de nós. O homem mais mundano ou o mais militante tem seus recônditos onde ninguém se aventura, nem mesmo ele, mas que lá estão: a noite da infância, os fracassos, as renúncias, a brusca emoção de uma nuvem no céu. Surpreender uma paisagem, um ser, tais como existem em nossa ausência: sonho impossível que todos nós acariciamos. Se lemos A Bastarda, o sonho se realiza, ou quase. Uma mulher desce ao mais secreto de si mesma e se revela com uma sinceridade intrépida, como se não houvesse ninguém para escutá-la.

Simone de Beauvoir


Pois é, lendo esse prefácio de Beauvoir, lembrei de uma conversa recente em que eu afirmei que gostaria de me sentir mais livre para escrever - mas acho que não é só pra escrever: é também pra falar, pra amar, pra transar, pra viver - porque eu acabo sempre me preocupando com o que posso provocar nas pessoas. Eu não quero ser nociva, não quero magoar, não quero me sentir culpada. Não quero ser má. Eu, no fim das contas, fico às voltas com essas antecipações, esses cálculos e acaba me faltando ar. Acaba apertando essa algema. Estou aqui pensando com meus botões que está na hora de acabar com a bocca chiusa e botar a boca no trombone. Fazer um staccato bem sonoro, pra aquecer e usar a dinâmica musical com todas as suas variações, sair do pianissimo e ir crescendo, mezzo forte, forte e principalmente, sem amarelar na hora do fortissimo, soltar a voz pela estrada molto fortissimo. Não deixar nada preso na garganta. Acho que a estréia está chegando. Merde pra todos.

quinta-feira, maio 3

Cataventos



"(...)Catavento enlouqueceu,
Ficou girando, girando.
Em torno do catavento
Dancemos todos em bando.
Dancemos todos, dancemos,
Amadas, Mortos, Amigos,
Dancemos todos até
Não mais saber-se o motivo…
Até que as paineiras tenham
Por sobre os muros florido!"
Mario Quintana

Uma nuvem de idéias passeia sem nenhuma pressa dentro de mim, estou numa fase produtiva, ao que parece.

Ontem alguém me perguntou, com outras palavras, por que uma mulher como eu (segundo essa pessoa, eu sou: bonita, "sexy" e inteligente), bem, por que eu estaria sozinha (entenda-se esse sozinha como sendo solteira = sem um homem, namorado ou marido). A verdade verdadeira mesmo é que no momento essa não é nem de longe uma preocupação pra mim e nem sei se voltará a ser, assim, pelo menos do mesmo jeito que era há pouco tempo atrás.
Não se preocupem os leitores deste blog - vocês, meus caros, que já devem ter percebido que são poucos e fiéis, amigos queridos já, conhecidos pessoalmente ou não - não se preocupem, não estou fazendo votos de castidade, longe de mim isso, que não tenho vocação pra freira, nem pra eremita, ou coisa que o valha.
Mas a questão, que eu quero apontar assim, ó, usando o dedo indicador mesmo, como me ensinaram que é feio fazer e atropelando as consciências fabricadas e civilizadinhas que passeiam pelas calçadas: eu tô me lixando pro convencional, tô emputecida com os estereótipos e tô ficando velha demais pra acreditar que eu preciso ter certos atributos pra ser feliz. Ter homem, casa, cachorro e filho, casa na praia e poupança. Ter, ter, ter. Tô de saco cheio de ouvir essa ladainha, já tô com nojo de conversinha fiada sobre bolsas Victor Hugo legítimas, vinho francês que eu nem sei pronunciar o nome, cirurgias plásticas e outras merdinhas afins. Esse disco não tem um lado B, pelo amor de deus?

Eu quero SER.

E outra nuvem de idéias passeia sem nenhuma pressa dentro de mim, estou numa outra fase, ao que parece.

sábado, abril 7


Palavras comportam
Palavras com porta
Palavras sem porta

Palavras que não se comportam

Palavras que importam

Palavras que não
outras que vão

Pazlavras

Paz

sábado, março 24

Marc Chagall - Tales from the Arabian Nights

Palavras morrem em mim todos os dias, uma coisa estranha esse não-dizer que se diz tanto e tanto. Uma vez me disseram que eu escrevo pra dentro. Tenho mesmo uma balbúrdia de silêncios, depois não sei porque não durmo. Quem vai dormir com tanto barulho?

terça-feira, março 20

O sentido anda me escapando, não sei quanto tempo faz isto. Acho que é quase como um esquecimento, sabe quando você sabe que a palavra que queria dizer está na ponta da língua? Mas não está. Parece claro, mas é só uma impressão. Tenho lido bastante, alguns conseguem transformar a falta de sentido em literatura sobre a falta de sentido. Eu ainda não sei o que eu vou fazer com isso. É uma falta estranha, é uma falta-presente, como se fosse uma mercadoria, ou como se fosse uma bomba. É uma coisa pra se jogar em algum lugar. BUM!


Ah, quase me escapava também: feliz aniversário pra mim.