
Falo comigo mesma
"Capta essa outra coisa de que na verdade falo porque eu mesma não posso. Lê a energia que está no meu silêncio." Clarice Lispector




Incrível como o tempo voa, a gente costuma dizer por aí, "o tempo passa", olhei minhas fotografias do Natal do ano passado faz pouco e me assustei, já é Natal de novo! Tempo dos tais balanços de vida, acho que todo mundo faz isso, nossa velha e boa neurose de sofrer pelo que não tivemos tempo de fazer e também pelo tempo que desperdiçamos sem fazer nada, com os prazeres e as preguiças. Meus cabelos brancos aumentaram muito, segundo meu cabeleireiro e meu namorado - são os únicos que enxergam as raízes branquinhas que vão se misturando, invadindo mesmo, por entre os castanhos de antigamente. O envelhecimento é uma coisa muito esquisita, ontem eu estava jantando com amigos e entramos nesse tema do estranhamento.
A gente se estranha diante de certas marcas do tempo, como se aparecessem assim, de repente, em nós. Um amigo dizia que "não pode" deixar a barba crescer, porque já está toda branca. Eu ri e lhe contei que meu cabeleireiro falou que "estavam aumentando horrorosamente os branquinhos na raiz" - dia destes, antes de colocar minha tintura - e eu gritei logo pra ele, nada dissso! Não me conta, não me conta! Prefiro a ignorância... deixa meus ruivos em paz, pra todos os efeitos.
Na verdade, disse no jantar de ontem e digo de novo aqui, eu ainda sou uma adolescente. Como na música aquela: "quem sabe ainda sou uma garotinha...". Eu ainda sou fã do Legião Urbana e lembro como se tivesse sido ontem do show deles que eu assisti quando tinha 16, num frio de rachar, fui pra ver o Renato Russo, aquela voz sem limites, aquele jeito revoltado de dançar, uma certa raiva do mundo que eu entendia tão bem naquela época. E entendo. Sempre.
Eu não deixei de ser a adolescente que usava pó compacto pra disfarçar as espinhas do rosto, que gostava de cantar e podia passar horas só fazendo isto sem sentir o tempo passar. Ainda sou aquela garota que ri meio atrasada das piadas que me contam, a "faísca atrasada", a mesma que adorava dançar com um boa dose de exotismo (tentando imitar o Renato Russo) e podia seguir dançando por noites inteiras, quase até o amanhecer, sem ficar semi-entrevada no dia seguinte.
Como pode ser que eu seja ao mesmo tempo essa adolescente por dentro, com cabelos brancos e dor no ciático por fora? São incongruências da vida. A vida é irônica com a gente, uma verdadeira cínica, cheia de sombras na parede da caverna, a gente fica lá, meio tonto, olhando de um ângulo pra outro a tal realidade do mundo e da gente. Enquanto passatempo.

Estou com uma coisa me apertando o pescoço. Sabe aquele nó na garganta? Pois é, eu tenho isso. Mas não é exatamente uma expressão idiomática, um sentido figurado, uma metáfora. Como boa histérica, claro que o meu nó é literal, ou melhor: corporal. É um nó-dulo. Um nó-dulo da tireóide. Aliás, ele não está sozinho. Eles já são dois; logo de saída o nó já trouxe companhia. Um nó-dulo acompanhado. Eu não esperava encontrá-los, nem sentia nadica de diferente, foi bem por acaso que acabei fazendo um exame por causa das tais gripes que me rondavam e vim a saber que eles estavam lá, crescendo, apertando a garganta devagarinho. Enquanto fazia outros exames pra saber se eles eram nó-dulos do bem ou do mal, passaram-se dias em que li um zilhão de coisas sobre estes nós. Pessoas que ficam com a metade da tireóide e se livram dos nós, pessoas que aprendem a viver sem a tireóide e pessoas que tem nós do mal e que precisam ser controlados mesmo depois de serem retirados. Tanta coisa sobre nós. Tanto de nós que eu li, revi e lembrei. Tantos nós em mim. Como foram parar todos esses nós aqui dentro de mim? Descobri, nas minhas leituras insones, que a tireóide é simbolizada por uma borboleta, que é o bichinho que lembra a sua forma: ela abraça a nossa traquéia com suas duas asas. Talvez eu tenha que ficar sem uma metade da minha borboleta. Parece que é o único jeito de me livrar do nó-dulo, que é do bem, mas pode mudar de idéia. E não queremos que ele mude de idéia. De jeito nenhum. Agora, é o seguinte: com uma borboleta pela metade, ficará a vida menos colorida? Espero que não, porque eu sou fã do Klimt. Vocês já notaram, né?
Terrenos tão movediços e tão intrigantes, as pessoas envolvem. As pessoas encantam e parece que algumas apresentam uma habilidade especial: com uma rapidez espantosa tomam parte de nós, entram na gente, nos parasitam, nos abraçam com tentáculos inúmeros e não sei ao certo se nos atam, aprisionam ou se nos domesticam. Não sei se fazer parte desse novelo humano é bom ou ruim. Não sei se gosto desse jeito das pessoas. A sociedade é uma trama de um novelo grandão; nela, o movimento de uns passa a ser, forçosamente, o movimento de outros. Agora eu quero claricianamente parar pra pensar nisso tudo, quero olhar o novelo daqui desse ângulo construído de linguagem. Vou usar lupaslavras e olhar bem de perto e me protegerei por algum tempo com meu pensescudo. Será que ser livre seria mesmo só uma miragem? Quanto mais olho em mim mais vejo fios do novelo; porque, vejam: é que olhar o novelo é me olhar também. Sou detetive das tuas pegadas e as tuas pegadas em certo ponto do caminho já são as minhas. Monstro-chiclete. Se eu parar de pensar um instante, gruda tudo. É preciso mascar. É preciso desfiar, mesmo que ao desfiar outro manto se teça. Não se pode deixar de ser. Acho que é isso que as pessoas ensinam.
Ai, que saudade do meu analista. Tô há um mês numa gripe de dar pena e não apareço mais nas sessões por conta disso. São Pedro tem pena dos gaúchos que esse tempo bipolar nos está castigando.
Esse vídeo aí faz parte de uma série que encontrei no YouTube com pequenos trechos de aulas e entrevistas do Paulo Leminski, destilando sua paixão pela poesia e pelo que ele chamou de "grande barato" da linguagem. O poeta diz que todo mundo é poeta aos 17 anos, que o que é raro é continuar acreditando na poesia depois dessa fase. Taí, eu acredito. Me acho ruim pra caramba escrevendo poesia, mas acredito na poesia que está nas coisas, insisto em deixar isso falar por mim. Acho que um poeta é um fixado, um insistente, um reminiscente, um remanescente, uma semente.

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