
Tudo o que sonho ou passo,
"Capta essa outra coisa de que na verdade falo porque eu mesma não posso. Lê a energia que está no meu silêncio." Clarice Lispector





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Olhar pra trás e não virar pó. Nem uma estátua de sal. Não é fácil. O passado é feiticeiro, prende e paralisa momentos que eram tão vivos e fossiliza tudo. É tão rápido que na vida um acontecimento assim nos faz virar nada, se não tivermos algum cuidado. Basta uma virada, um olhar breve e não se vê jamais o mesmo de novo. E lá está diante de nós: um deserto, um vazio, um vento seco que sopra ríspido em tom de mágoa ou em outros tons diferentes mas que vão todos arranhando a gente. Eu sabia que não podia olhar pra trás, que tinha que seguir em frente sem pensar, mas eu não pude evitar. Foi simplesmente um movimento meu, uma andança que eu precisava fazer nesse deserto. Constatar a paisagem, testar uma amizade, esperar uma generosidade ou uma gentileza, talvez fazer um pedido grande demais. Mas foi uma coisa que não pude evitar. Uma sinceridade que olhou antes de mim, através de mim, apesar de mim e se virou mesmo ciente dos avisos e do pacto tácito. Não quis ser o olhar de uma traidora, nem trazer nem deixar uma sensação de abandono, não quis ser o que foi. Não posso desfazer o olhar que se voltou pra trás e viu. Mas não viremos pó na paisagem desolada, só o que houve é que ficamos distantes. A distância é uma mudança, é uma coisa viva, algo que acontece entre humanidades, solidariedades, amizades. Ela cria um vão que guarda algo de bom. Irrecuperável, mas bom.
“Lembrai-vos da mulher de Ló” (Lc 17.32)

Retrato de Edward James - René Magritte
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