segunda-feira, outubro 16

Depois do divã

Ufff, prometo que não escrevo logo depois de sair do divã, como da última vez, sobretudo se foi uma sessão heavy. Sim, porque não é sempre assim, tem vezes que a sessão é light, com direito a rir de si mesma inclusive e até é possível sair e achar que se está mais leve (apesar de estar 4 quilos acima do peso normal) e que o dia está mais lindo e que as pessoas são todas simpáticas com você etc etc etc. Mas tem horas que o choro é inevitável e saio lavada de lá. E cada palavra corta a garganta, a voz sai embargada, frágil, junto de uma sensação de fraqueza que consome todos os meus dias já vividos, um a um. Tudo vira nada. Fico moribunda e saio arrastando os chinelos. Sigo de volta pra casa percorrendo o caminho que parece infindável, lágrimas caindo mansamente, sem controle, que vergonha, será que alguém está vendo? O mesmo caminho aquele que, pasmem, passa tão rápido que nem dá tempo de fechar o livro e organizar as coisas pra descer do micro-ônibus quando chega na Borges. Enfim, o mundo é de fato uma questão de pontos de vista. E de humores.

quarta-feira, setembro 27

Está difícil dizer por mim mesma
Dói, como isso dói
são tantas negações
tanto tempo que me perdi de mim
Nem sabia
Já nem sabia que eu ainda me tinha
Aqui dentro

Alcóolicas (Hilda Hilst)

É crua a vida. Alça de tripa e metal.
Nela despenco: pedra mórula ferida.
É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.
Como-a no livor da língua
Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me
No estreito-pouco
Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida
Tua unha plúmbea, meu casaco rosso.
E perambulamos de coturno pela rua
Rubras, góticas, altas de corpo e copos.
A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.
E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima
Olho d’água, bebida. A vida é líquida.

segunda-feira, setembro 11

Rosa de Hiroshima

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas, oh, não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada
(Vinicius de Moraes / Gerson Conrad)




A humanidade é um mistério: é a capacidade de amar, de se curar, de ser feliz, de cantar, de sorrir, de brincar, de dar carinho, de cuidar. É a perseverança que pode levar anos e anos para educar, ver crescer e depois libertar. Deixar partir. É desprendimento.
Mas também é destruição; a humanidade também é maldição, quando mata, tortura, extermina, odeia. Essa humanidade tem uma face que não consigo entender.

terça-feira, agosto 22

4o. Motivo da rosa



Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.

Rosas verá, só de cinzas franzida,
mortas, intactas pelo teu jardim.

Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim.

E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.

Cecília Meireles

sábado, agosto 19

Quem dera eu fosse um músico

que só tocasse os clássicos,
a platéia chorando
e eu contando os compassos.
Se eu soubesse agora,
como eu soube antes,
a dança alegórica
entre as vogais e as consoantes!

Paulo Leminski

domingo, agosto 6

Domingo em casa


E como foi que aconteceu que de repente, num único ano, eu envelheci dez?

quarta-feira, agosto 2

Centenário de Mario Quintana

Mario Quintana nasceu em Alegrete no dia 30 de julho de 1906. Completou seu centenário esse fim de semana recebendo lá no céu as homenagens que fizemos pra ele aqui em Porto Alegre! Parabéns, poeta, e obrigada por teres sido assim tão nosso!








O Mapa


Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo...

(É nem que fosse o meu corpo!)

Sinto uma dor infinita
Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei...

Há tanta esquina esquisita,
Tanta nuança de paredes,
Há tanta moça bonita
Nas ruas que não andei
(E há uma rua encantada
Que nem em sonhos sonhei...)

Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso

Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)

E talvez de meu repouso...




AH! OS RELÓGIOS

Amigos, não consultem os relógios
quando um dia eu me for de vossas vidas
em seus fúteis problemas tão perdidas
que até parecem mais uns necrológios...

Porque o tempo é uma invenção da morte:
não o conhece a vida - a verdadeira -
em que basta um momento de poesia
para nos dar a eternidade inteira.

Inteira, sim, porque essa vida eterna
somente por si mesma é dividida:
não cabe, a cada qual, uma porção.

E os Anjos entreolham-se espantados
quando alguém - ao voltar a si da vida -
acaso lhes indaga que horas são...



Mario Quintana - A Cor do Invisível

quinta-feira, julho 27

Decidindo




Gato que brincas na rua
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama.
Bom servo das leis fatais
Que regem pedras e gentes,
Que tens instintos gerais
E sentes só o que sentes.

És feliz porque és assim,
Todo o nada que és é teu.
Eu vejo-me e estou sem mim,
Conheço-me e não sou eu.

Fernando Pessoa



Estou achando que este blog está nascendo meio diferente do antigo, menos literário talvez, mas mais autobiográfico. Será que vou escrever um diário por aqui? Engraçado, o Bocca ainda está meio indeciso. Vou deixá-lo livre para decidir o que quer ser. Então, simplesmente deixo rolar, afinal as palavras sempre saem mesmo, em parte, de acordo com a nossa vontade, e outra parte, - muito provavelmente a melhor - apesar da nossa vontade!

terça-feira, julho 25

E pra comemorar...

...nada como uma boa poesia! Tim-tim!!!

Aceitação



É mais fácil pousar o ouvido nas nuvens
e sentir passar as estrelas
do que prendê-lo à terra e alcançar o rumor dos teus passos.

É mais fácil, também, debruçar os olhos nos oceanos
e assistir, lá no fundo, ao nascimento mudo das formas,
que desejar que apareças, criando com teu simples gesto
o sinal de uma eterna esperança

Não me interessam mais nem as estrelas, nem as formas do mar,
nem tu.

Desenrolei de dentro do tempo a minha canção:
não tenho inveja às cigarras: também vou morrer de cantar.


Cecília Meireles

Voltando pro divã

Pois é, depois de muitos anos de folga, imerecida e arbitrariamente auto-ofertada, voltei a deitar no divã. Subi o morro da polícia, parei no mirante em frente à TV e vi tudo lá embaixo ficar pequenininho como eu me sentia por dentro, era minha sala de espera. Olhei aquela imensidão de paisagem, o Guaíba tão sobrevoado por mim nos últimos tempos. Deitei no divã e redescobri minhas loucas pretensões. Parece que finalmente fiz um pouso, forçado, mas fiz. E voltei a ter os pés no chão.

sexta-feira, julho 21

Pra começar

Como disse Mario Quintana, "O papel está hoje com uma abominável falta de imaginação.
Continua apenas, olhando-me: vazio, mais quadrado do que nunca."

Assim estou eu começando este blog em plena crise, me deu o branco!!! Mas tem muita coisa que está pra ser dita! Venha visitar!